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A contribuição da terapia social para a sociedade actual
A necessidade de viver e trabalharmos juntos A TS tenta aproximar-se o mais possível da realidade, distanciando-se dos preconceitos, das propagandas, dos movimentos colectivos de tipo emocional, lutando contra todas as tentações totalitárias ligadas à nossa capacidade de idealização e de demonização. A TS é uma maneira de recriar um elo entre grupos que já não podem encontrar-se e que até se odeiam por vezes. A TS é um itinerário espiritual com todas as suas vantagens e inconvenientes. Partir à descoberta de si mesmo não fácil, mas permite avançar embora o sofrimento seja inevitável. O objectivo final é permitir a emergência de uma inteligência colectiva a partir do grupo. Nota: Este texto inspira-se largamente do último livro de Charles Rojzman “Bien vivre avec les autres”, ed. Larousse (ref. no fim). As frases do autor foram raramente alteradas. O objectivo deste trabalho é transmitir uma informação sobre a pertinência da Terapia Social para a sociedade actual. Gênese da terapia social Charles Rojzman sociólogo e psicoterapeuta, intervém há mais de vinte anos junto de grupos ou de indivíduos em conflito tanto na França como no estrangeiro. A sua prática permitiu-lhe elaborar um método de intervenção original, a Terapia Social. O seu método tem algo que ver com a história pessoal de seu criador, C. Rojzman. Nascido de uma família judia, emigrou da Polónia em 1942. Os seus 4 irmãos e avós desapareceram durante a guerra. Nós somos, de facto, determinados em grande parte por aquilo que fazemos. É o que as pessoas procuram compreender quando entram no processo da TS:
Referências intelectuais Limitamo-nos a mencionar os autores que tiveram uma influência significativa sobre a criação da TS. Para obter mais detalhes, consultar o livro “Bien vivre avec les autres”, p. 23-33. • Sigmund Freud (C. Rojzman escreveu um livro sobre Freud, "Freud un humanisme de l’avenir” • Eric Fromm • Cornelius Castoriadis • Melanie Klein • Henri Laborit • Gerard Mendel • Kurt Lewin Desde há muitos anos que a TS progride como disciplina autónoma, mas a montante deste processo encontram-se as bases oriundas da Psicologia Social, cujos fundadores foram Jacob Moreno (1889 - 1974) Elton Mayo (1880 - 1949) e Kurt Lewin (1890 - 1947). A Psicosociologia pressupõe que nenhuma crise social pode ser resolvida sem ter em conta o conflito entre as lógicas institucionais – visando a eficiência – e o desejo de autonomia do individuo contrariando essas lógicas. Os factos sociais não podem ser analisados estaticamente. Eles são percorridos pelo ser humano e, portanto, sujeitos aos movimentos de sua Psiquê. É impossível conceber o indivíduo social fora do seu contexto ou fora das instituições enquanto organização colectiva sem em considerar a dimensão psicológica dos seus membros. A crise social é, então, simultaneamente, uma crise institucional e uma crise de indivíduos. A Psicopatologia torna-nos conscientes de que os seres humanos, além dos sofrimentos pessoais, podem igualmente padecer de vários distúrbios psíquicos quando formam um grupo, distúrbios nomeados genèricamenete "angústia coletiva”. A contribuição da terapia social na sociedade actual, em agosto de 2009 Quando o grupo está em crise, instalado num processo regressivo, o equilíbrio psíquico comum vai estabelecer-se no ponto mais baixo da psiquê individual e as reacções mais instintivas vão emergir, tais como os instintos de conservação, de agressividade e de gregaridade. Os grupos, incluindo os mais evoluidos, podem tornar-se crédulos, impressionáveis e belicósos, bastante receptivos aos boatos, à propaganda ou às idéias feitas, que serão consideradas como incentivos ao ódio alimentando medos e preconceitos simplistas. As ideias mais inícuas podem até influenciar fortemente grupos constituídos de pessoas supostamente livres, tolerantes e pacifistas. O abandono da capacidade de julgamento e de espírito crítico pode ser total. É por isso que a TS, que tem como objectivo o tratamento social dos problemas, optará pela terapia do grupo. Interessa-lhe sobretudo identificar o grupo (instituição, bairro, bando, corporação) a que pertencem aos indivíduos considerados como violentos ou autores de acrtos descriminatórios. Aperceber-se-á então que é o próprio grupo que está em crise e na orígem dos conflitos colectivos. O pressuposto conceitual subjacente à primeira etapa da TS, é que o racismo e de maneira geral o ódio do outro, é um sofrimento para quem é o autor. Primeiras descobertas • Os ódios escondem ou traduzem receios. Cada vez que uma pessoa sente ódio A partir daí é importante que se compreenda na atitude ou no comportamento de quem é considerado ou que se considera a si próprio vítima de racismo ou de desprezo, a maneira como ele nutre a descriminação e o ódio de que é objecto através das suas atitudes e acções Que trata a Terapia Social? A TS cuida das doenças sociais que nos atingem colectivamente: • Crise de sentido Elas representam as várias facetas desta situação geradora de medo e de violência. As doenças colectivas da nossa época, segundo a TS, são: • A depressão Estas doenças sociais existem em toda parte: nas famílias, empresas, instituições, bairros e zonas de conflito. A depressão Em todos os grupos afectados por essas terapias da relação e da "convivência", há pessoas que não têm confiança nelas próprias, não têm projectos para o seu futuro e vivem, por vezes, diversas formas de ódio e de desprezo de si mesmos. Não pensam que estão deprimidas, dado que conseguem viver e trabalhar normalmente mas, de facto, as suas vidas perderam "substância" deixando de acreditar nelas. Sociopatia Trata-se de indiferença para com os outros e as suas necessidades. “Cada um por si” o que leva à delinquência, à corrupção, a negociatas, a páraquedas dourados... É óbvio que o egoísmo social encontra-se em todas as componentes da sociedade marcada por uma lógica de rentabilidade e por uma concorrência feroz. O medo do empobrecimento e do declínio social e até mesmo o receio de possuir menos, são os ingredientes desta doença. Vitimização Trata-se do sentimento de que se é vítima dos outros que estaríam, supostamente, por trás de todos os nossos males. O medo e o sentimento de ser vítima engendra muitas vezes o ódio e a violência. A TS trabalha a partir destas realidades emocionais ajudando, numa primeira etapa, indivíduos e grupos sociais a organizarem-se com o objectivo de produzirem uma mudança colectiva no interior de seu meio profissional e realizando-se simultâneamente a nível pessoal. Para criar as condições de uma convivência equilibrada, objectivo da TS, um trabalho exigente tem de ser feito a fim de permitir que as pessoas tomem consciência da existência dessas emoções, assim como proporcionar-lhes a sua tranformação da maneira mais construtiva possível. O essencial é encontrar uma capacidade de acção conjunta Trabalhar sobre o medo, a violência e o sentimento de impotência, para finalmente travar o ciclo infernal resultante dessas emoções, é um pré-requisito para qualquer projecto colectivo. O medo, entre realidade e fantasmas A palavra "medo" faz medo. É difícil reconhecer esse sentimento em si mesmo. A TS cuida dos medos que impedem as pessoas de terem relações harmoniosas umas com as outras pois o medo produz fenómenos de proteção que podem erigir obstáculos impedindo uma relação autêntica com os outros. Tais fenómenos tanto podem engendrar a violência como também uma atitude de recuo ou, mais simplesmente, uma timidez mórbida, uma falta de confiança ou ainda levar à manipulação dos outros. Todos estes sistemas de protecção impedem um relacionamento saudável com os outros, resultando daí um amplo sentimento de impotência e muitas violências contra si próprio e contra os outros. Os medos podem ocasionar estados depressivos, insucessos escolares e profissionais. Isso produz reacções violentas contra as instituições e contra a autoridade. Em TS, é preciso agir a dois níveis: compreender os nossos medos, mas também encontrar formas de satisfazer minimamente as nossas necessidades básicas Usar uma máscara para esconder o seu medo O medo cria sofrimento, mas também violências e mal-entendidos nas relações humanas. Isso acontece quando tentamos esconder esse medo. A principal técnica para ocultar o medo é usarmos uma máscara e desempenharmos um papel, não revelando assim quem somos realmente. A segunda técnica consiste em nos reagruparmos entre pessoas "simpáticas", em clãs com as mesmas afinidades. As máscaras são uma defesa, mas em contrapartida criam violência ou hostilidade. Se uma pessoa vai exagerar o seu valor e utilidade social, outra vai desvalorizar-se excessivamente enquanto outra vai refugiar-se no silêncio ou numa idiotice fingida. Outra ainda mostrará o seu desprezo quer opondo-se sistematicamente, quer submetendo-se à autoridade. Neste último caso, a pessoa vai colocar-se numa posição de vítima, acusando o mundo inteiro de a perseguir. Desempenhar um papel na sociedade, ocultar as suas emoções e medos, tais são igualmente os meios de protecção de que necessitamos. Mas será que medimos as consequências? Num grupo de TS ninguém pede aos participantes que falem dos seus medos, que os compreendam e os ultrapassem. Mas eles apercebem-se pouco a pouco até que ponto estes mecanismos em vez de os protegerem, os bloqueiam, obrigando-os a violentarem-se a si-próprios, provocando em contrapartida a violência que se pretendia evitar inicialmente. Cada participante tomará progressivamente consciência da influência dos seus medos na sua própria vida: - recursos pessoais e potencialidades desperdiçadas (auto desvalorização e sabotagem das qualidades pessoais) - tendência a enclausurar-se numa visão catastrófica da vida ou demasiado cínica da realidade (incapacidade de agir) - violência contra si-próprio (desapreço, ódio de si-mesmo, autodestruição) - e, finalmente, um terrível sentimento de impotência, gerador de violências. Como consequências a nível social: • deterioração das relações de trabalho • Deterioração no trabalho • Comportamentos insolentes ou apáticos na escola • formas de egoísmo social (sociopatia) • Dificuldades de cooperação com outros modos, preferindo modos de relacionamento negativos (submissão, revolta, isolamento, constituição de clãs ...) Os medos ocultam as necessidades Os medos estão sempre associados a necessidades não satisfeitas que são na realidade fundamentais para os seres humanos: • necessidade de amar e ser amado • de segurança • de dar sentido à vida • de densidade A sua ausência provoca mecanismos de defesa: • a falta de amor leva à possessividade, ao desejo de sempre agradar. O receio de ser rejeitado induz uma atitude agressiva, excessivamente afectuosa ou hostil a qualquer relação, a fim de reforçar o sentimento de rejeição. • a falta de segurança gera o medo de ser agredido e procura controlar tudo. • a falta de significado leva à busca de verdades absolutas, ao receio em face do desconhecido, às ideologias sectárias ou fanáticas. • a falta de dinheiro produz o pânico de carecer do essencial, o medo de perder o emprego, a obsessão de entesourar, o desejo de enriquecer sem atingir satisfação. Destes receios resultam violências a diferentes níveis: • o medo de ser rejeitado provoca a agressividade e o sentimento de ser vítima: ninguém me ama, sinto-me excluído, pensamentos paranóicos (excluem-me voluntariamente, estão todos contra mim...), levando à rejeição violenta dos outros. • o medo de ser agredido leva a um posicionamento defensivo e agressivo (querem-me mal). • o medo do desconhecido provoca o isolamento violento e um niilismo depressivo (nada tem sentido, não acredito em mais nada, já não desejo viver) ou a ideologias fanáticas (o mundo deve abraçar a minha verdade). • o medo da decadência social faz que se deseje enriquecer a todo o custo, tornando-se delinquente ou caindo num egoísmo social sem limites. Estes sentimentos são amplamente compartilhados porque as necessidades básicas de cada um são raramente satisfeitas ao mesmo tempo. Algumas pessoas acumularão as carências e serão por conseguinte mais afectadas do que outras. Os indivíduos não são iguais quanto à satisfação das suas necessidades. Mas à partida todos se assemelham e funcionam do mesmo modo. A violência social, um problema ou uma solução? O trabalho da TS não consiste em levar os grupos à não-violência, mas sim conduzi-los a um conflito construtivo resultando numa dinâmica de cooperação. Em última análise, a violência diminui, mas os problemas não se resolvem. Na realidade, a violência não é o problema, mas sim a solução. É só a partir da sua manifestação que nós começamos a preocupar-nos das dificuldades reais. A violência é um revelador. Na família, no trabalho, na rua, a violência (visível) permite identificar os males menos "visíveis" e mais preocupantes. No entanto, esta violência "visível" não deve ser banalizada, pois torna-se extremamente difícil de resolver uma situação e encontrar formas de cooperar quando um determinado limiar de violência foi atingido. A TS intervém para identificar o que pode ter causado o crescimento da violência. O grupo que irá viver o processo de TS terá como trabalho nomear aquilo que produziu a violência entre as pessoas presentes e experimentará, no final do processo, uma mudança positiva, através de propostas concretas e estabelecendo um diagnóstico adequado. A violência em todas as suas formas A violência deve ser diferenciada da cólera e do conflito. Se estou zangado, não sou necessariamente violento. Se estou em conflito com alguém, não sou necessariamente violento. • formas extremas de violência: guerras, assassinatos, estupros, mas também o desprezo, a desvalorização e a vontade de destruir o outro. • a violência física é a mais fácil de detectar, mas há outras formas mais insidiosas, A violência está sempre ligada à representação do outro ou dos outros. Trata-se de desconsiderar, de negar, de negligenciar ou destruir as pessoas pelas quais é impossível sentir qualquer empatia. Todos somos capazes disso. É quando me recuso em considerar o outro como um irmão em humanidade que posso exercer sobre ele a minha violência. Todos somos potencialmente violentos. Amor e ódio são, segundo Freud, as duas faces da mesma medalha. Cada um de nós, envolvido numa situação ou numa acumulação de sofrimentos silenciados, é capaz do pior. Compreender esta processo, ser capaz de recuar, é a única maneira de acalmar a onda de violência antes desta atingir o clímax. A violência como solução Isto pode chocar-nos, mas a violência não é um problema, é uma solução. A violência ocorre quando uma pessoa ou um grupo não encontrou solução para os seus problemas. Quando alguém sofre necessita para sair desse estado, mas ele muitas vezes sente-se incapaz de mudar seja o que for. A violência é uma forma de responder à sua impotência. Afirmar que a violência não é um problema, mas uma solução, é uma maneira de dizer que ela permite sair da impotência, de não mais ser vítima nem ser perseguido. A violência permite mostrar a força para melhor ocultar a sua fraqueza. É ainda uma solução contra o isolamento e a solidão experimentadas por muitos: o racismo e a xenofobia permitem recriar, com os membros do grupo de pertença, um elo identitário forte em face de outros grupos que se tornaram inimigos. Todas as violências podem ser consideradas como soluções em resposta a uma carência, a uma necessidade insatisfeita, a um sentimento de impotência ou de perseguição. Daí o interesse considerável em encontrar formas que respondam às necessidades fundamentais dos seres humanos no seio da família, das instituições ou duma sociedade que busca a paz e equilíbrio. Tal é o objectivo do TS: em vez de erradicar a violência, considerada como uma solução "regressiva", é a partir daquilo que ela exprime profundamente que se poderão encontrar soluções construtivas, colectivamente. A violência, a expressão de um sofrimento Ao trabalharmos sobre a violência sofrida ou exercida descobrimos sempre um intenso sofrimento. Todos nós somos capazes de violência, porque todos somos potencialmente sofredores. Mas quanto mais um indivíduo sofre mais ele é susceptível de ser violento, inclusive em relação a ele próprio. Porém, dentro de um grupo, não se trata de revelar sofrimentos a fim de nos apiedarmos dos infortúnios de cada participante. Trata-se sim de ver, ouvir e aceitar aquilo que é doloroso - em si e nos outros – e que permite progredir. Na vida social, estamos habituados a fazermos de maneira a que os sofrimentos não venham à superfície; calamo-los a fim de trabalhar, amar, viver com os outros. Isto leva-nos a mentir uns aos outros, impedindo-nos de resolver os problemas em profundidade… Pois, ao dissimularmos o nosso sofrimento, escamoteamos igualmente a violência que simultaneamente dele resulta. Acalmar a violência implica assim que o sofrimento seja identificado, dito, escutado. Em TS preocupamo-nos sobretudo com o sofrimento que resulta do contexto social das pessoas. Com efeito o sofrimento pessoal (feridas da infância e da vida) não é estranho ao contexto social de uma pessoa (escola, família, casal, trabalho). Mas a especificidade de uma TS consiste em analisar conjuntamente a maneira de transformar o contexto para que este evolua no sentido de um restabelecimento em vez de aumentar os sofrimentos. Se a escola assim como a instituição na qual posteriormente a pessoa trabalhará tiverem uma função reabilitadora, então elas poderão curar ou aliviar os seus sofrimentos. Mas se, ao contrário, os contextos forem patogénicos, isto é, geradores de violência, de solidão, de competição, de incapacidade em realizar projectos comuns, o indivíduo vai sofrer cada vez mais tornando-se violento por reacção a fim de compensar a sua impotência e sofrimento. Nem a escola nem o mundo do trabalho são actualmente reabilitadores. O sentimento de impotência A incapacidade de assumir o controlo da sua própria vida ocasiona um verdadeiro sofrimento. Se eu me sentir impotente acabo por sê-lo de facto, o que elimina qualquer perspectiva de resolução do sofrimento. Mas se, pelo contrário, eu vislumbrar perspectivas de mudança, nesse caso elas tornam-se viáveis. A TS preocupa-se essencialmente com a supressão deste bloqueamento inibidor cujas consequências são bastante nefastas no seio de uma comunidade. O sentimento de impotência está na génese dos nossos medos colectivos (medo do futuro, do insucesso…) e de certas expressões da violência (diabolização dos outros, soluções regressivas…) assim como de todas as formas de auto-depreciação. Esse sentimento está igualmente na origem de um desaproveitamento considerável das boas intenções colectivas. Isso dificulta qualquer possibilidade de cooperação, sugerindo que não serve de nada mobilizarmo-nos para a mudança. Que se pense na impotência dos pobres, dos empregados, dos subordinados, da geralmente ignorada situação dos que estão " no topo ", menos admitida e reivindicada. Isto reforça as relações de subordinação de uns em relação aos outros e impede que se encontrem soluções colectivamente. Quantas vezes os decisores agem sem qualquer concertação, sem se apoiarem na riqueza informações oriundas de quem ocupa o terreno. Em resumo: O sentimento de impotência exprime-se raramente no topo da hierarquia; no meio ele existe, mas é pouco assumido pessoalmente; na base é excessivo, exprimindo-se frequentemente através do desespero e da violência. Deste modo todos os níveis da sociedade vão imaginar, para não dizer “ fantasmar ”, as posições de uns em relação aos outros reforçando as suas convicções iniciais. A ausência de cooperação e a solidão As crises que atravessa a nossa sociedade e o sentimento de impotência estão interligados. A falta de cooperação e a solidão são preocupantes, as motivações individuais dominam o sentido colectivo, isto é, o sentimento de fraternidade e de solidariedade dissipa-se. O enclausuramento (entre comunidades, culturas, gerações, categorias socioprofissionais...) reforçou o sentimento de impotência e a ideia de que fora do seu grupo só há inimigos, os que não tem razão e especialmente que nos impedem de agir. Para superar este impasse, é preciso recrear laços e retomar confiança no poder da ação colectiva. Deve-se também redescobrir o sentido do projecto comum. Não é só entender que juntos somos mais fortes, mas que juntos, vindos de Em todas as profissões existem "códigos" que levam a pensamentos como "temos de fazer”, como "a nossa missão é"... A uniformidade de comportamento ao ser reivindicada sugere uma unidade e solidariedade totalmente falsas que produzem ainda mais impotência. É o funcionamento do clã: ou nos submetemos ou somos é excluídos. A posição de vítima Considerar-se a si mesmo como uma vítima leva a atitudes como "eu não posso fazer nada... São os outros que podem”. E se eu não posso nada, é porque os outros me impedem de fazer. Temos sempre muita dificuldade em aceitar que as crises que atravessamos são globais e profundas, que elas não resultam de grupos específicos nem são a expressão de uma fatalidade contra a qual seríamos incapazes de agir. Aceitar essa ideia seria reconhecer a responsabilidade de cada um. Ora não é isso o que de algum modo rejeitamos? Por todo o lado a responsabilidade é rejeitada sobre os outros. Podemos também transformar o nosso próximo em vítima, o que leva aos mesmos impasses. "Se os jovens são violentos é porque são vítimas de discriminações”, “se os pobres são pobres é porque são vítimas do capitalismo internacional...”, “se os alunos chumbam é porque são vítimas de condições sociais desfavoráveis…” Reforçar a impotência dos outros é uma maneira de confessar a sua própria incapacidade. Agir sobre esta, é ajudar as pessoas a recuperarem o controlo das suas vidas tronando-se a mudança possível. A nível psicológico e pessoal, a TS vai favorecer a confiança em si próprio, a responsabilidade e a satisfação das necessidades básicas, assim como a cooperação concreta e o conflito construtivo tanto social como colectivamente. Isso permitirá apaziguar os receios, transformar a violência em conflito e reduzir o sentimento de impotência dando lugar a uma capacidade de acção colectiva. Os objectivos da terapia social A TS visa um ideal de sociedade democrática, que defende a dimensão colectiva contra o fechar-se sobre si-mesmo, tendo sempre em vista uma melhoria da vida colectiva. Mas esta melhoria só pode resultar se os indivíduos adquirirem uma maior autonomia e um verdadeiro sentido da responsabilidade, se descobrirem o desejo de se comprometerem e libertarem do sentimento de impotência, se saírem da sua solidão ou fechamento comunitário a fim de se abrirem a uma maior solidariedade e se, finalmente, conseguirem transformar a violência em conflito. O conflito permitirá a troca de ideias e o debate, essenciais numa democracia forte. Tratar os medos Aprender a distinguir entre medos justificados (perigos reais) e medos irracionais (fruto da Imaginação, fantasmas, preconceitos ou atitudes paranóicas). Aprender a melhor conhecer a vida para viver melhor. Para "curar" é essencial que seja restabelecido o contacto com a realidade tal qual ela é e não tal como a imaginamos. Não se trata de domesticar os medos mas sim, progressivamente, poder distinguir entre os que são reais e os que são causados por feridas pessoais sem relação com a realidade presente. Aprender a reconhecer a origem dos medos pessoais e colectivos, compreender os desejos e necessidades que se escondem por detrás deles, é a primeira etapa da terapia que consiste em permitir que os medos se exprimam, dado que a experiência nos mostra que eles se atenuam quando são verbalizados e reconhecidos como tais. O objectivo de um trabalho em grupo é assim ultrapassá-los, construindo colectivamente. É importante que se trabalhe simultaneamente sobre o “passado” e o presente” das pessoas, assim como sobre as condições de uma mudança reabilitadora. Isso constitui o trabalho terapêutico individual, com a ressalva de que isso não é ajudar as pessoas de forma isolada mas sim permitir que um grupo desenvolva uma estratégia comum para operar essa mudança. E posto que as pessoas têm as mesmas necessidades e sofrem das mesmas lacunas, o objectivo social e comum irá no sentido de uma reabilitação individual. Reconhecer os medos Os medos reconhecidos e formulados em grupo perdem o seu poder destrutivo. Por princípio, a TS é muito precauciosa em relação a qualquer forma de manipulação ou de dirigismo. Cada um expressa o que deseja ao seu próprio ritmo. Não procuramos extrair confissões, mas sim promover um ambiente seguro que permita e estimule a expressão individual, favorecendo uma comunicação eficiente, capaz de resolver os conflitos latentes ou abertos no interior de um grupo. Deixar de julgar os outros trabalhando em comum Quando o terapeuta cria um ambiente seguro e igualitário ele faz desabrochar em cada participante o seu potencial de sociabilidade. O clima geral irá gradual e inevitavelmente apaziguar o medo natural de ser rejeitado ou de não ser apreciado no interior do grupo, o que diminuirá os comportamentos violentos. O estatuto de uns e dos outros desparece assim progressivamente, exprimindo-se cada um em seu próprio nome, evocando dificuldades particulares e não através de generalidades. As pessoas aprendem umas com as outras inclusive através da crítica mútua. Mas ao criticarem-se fazem-no na base de factos reais e não a partir de um “discurso”. Cada um deixa de odiar o outro por aquilo que ele representa passando a prestar atenção àquilo que ele é, pensa e diz verdadeiramente. É o início de uma resolução não violenta do conflito. Definição de um quadro estrito e protector 4 regras básicas: • A liberdade de participação • Proibição de exercer violência física ou de um qualquer comportamento repreensível aos olhos da lei • Confidencialidade: proibição de divulgar no exterior o que se diz no interior do grupo • Presença obrigatória Estas regras dão segurança aos participantes. Com efeito, participar num grupo de TS é emocionalmente desgastante. Não se trata nem de uma “batalha campal” aonde cada um vai diz brutalmente o que o faz sofrer, nem de uma terapia de grupo aonde os participantes vêem sarar as feridas da infância. Os participantes devem sentir e saber que não se encontram numa arena aonde tudo é possível. Desde o início o quadro protege-os: • A palavra é protegida pela regra de confidencialidade • As pessoas são protegidas pelas regras legais que proíbem a violência física e atitudes repreensíveis • Dá sentido ao trabalho comum (visto que a presença dos participantes é obrigatória) • Cada um progride ao seu próprio ritmo e sem pressão exterior (participação livre) Deste modo, um clima de confiança desponta gradualmente. Algumas pessoas resistirão e levarão mais tempo a serenar, a ter confiança no grupo. Deve-se estar atento a esta realidade que implica a necessidade de dar tempo ao tempo. A TS pode ser praticada em duas horas como em dois anos, mas é óbvio que quanto mais a intervenção for longa mais as pessoas serão capazes de superar esses primeiros "estados" naturais de apreensão em relação aos outros. Surgimento da cooperação Sem uma verdadeira aprendizagem da cooperação, as pessoas dissimulam-se frequentemente por detrás da sua função, defendem a imagem do seu bairro ou da sua instituição, protegem ciosamente os seus segredos e revelam dificilmente as suas falhas. Trata-se de uma “falsa” colaboração que permite de facto aprender a conhecer-se um pouco, vislumbrar soluções, mas que ao evitar de falar dos verdadeiros problemas impede de sair de um sentimento de impotência. Existe ainda uma outra forma de cooperação que é uma “a cooperação patológica”: ela consiste em se reagrupar entre membros de uma mesma comunidade contra as outras comunidades. Este tipo de cooperação é perigosa porque, reunindo os membros do mesmo clã, orienta a solução dos problemas para um ou outra forma de maniqueísmo: "Nós e os outros”. Nós representamos o que é certo, o que é bom, o que é verdadeiro enquanto os outros representam o que está errado, mau e injusto. A cooperação em TS apoia-se sobre as falhas e limitações de cada indivíduo, grupo ou instituição. Cada um mostra-se tal qual é e ousa falar dos seus erros, das suas dificuldades, sem recear o julgamento e a rejeição por parte do grupo. A TS permite sair de uma vitimização impotente, conectar-se à realidade e desenvolver colectivamente estratégias para mudanças significativas. É a capacidade do grupo em definir metas realistas e realizáveis, definir prazos e avançar por etapas, que está em jogo. Em seguida a cooperação entre as pessoas é essencial e tem um papel terapêutico. Trabalhar de forma inteligente e em confiança dá força e energia ao grupo e é assim que surgem perspectivas de mudança. É claro que nada está ganho à partida, mas também nada está perdido. Permitir a circulação das informações Um factor importante é o conhecimento dos outros. A partir do momento em que os conheço passo a ter menos medo. O mesmo acontece com a realidade do “sistema" pois desde que a sua mecânica é conhecida deixo de o recear e de me contentar em o diabolizar. A circulação das informações é uma fase essencial em TS, que se torna possível quando os medos se atenuam e a confiança se instala. A circulação da informação conclui o trabalho sobre os medos porque ajuda a dissipar os mal-entendidos entre as pessoas: todos vão trabalhar a partir da "realidade". No termo de uma actividade de TS, os participantes terão feito a experiencia de uma construção colectiva pacífica. A TS, tendo por objectivo acompanhar as pessoas na aceitação das suas responsabilidades, permite igualmente que as emoções, os medos, os ódios, venham ao de cima para esclarecerem certos comportamentos de outro modo incompreensíveis. A autenticidade das informações que circulam permite sair das incompreensões mútuas, dos mal-entendidos e, sobretudo, de proporcionar uma visão mais precisa e complexa da realidade. Criação de inteligência colectiva Trata-se agora de levar o grupo acompanhado em TS a uma melhor compreensão dos diferentes pontos de vista dos participantes. Eles questionar-se-ão sobre as suas convicções e preconceitos, descobrindo que não são unicamente vitimas mas que eles, assim como a instituição, têm a sua parte de responsabilidade naquilo que acontece. Deste modo, a inteligência colectiva permite encontrar em conjunto soluções adaptadas. O objectivo do TS será fomentar essa inteligência colectiva, fruto de um fluxo de informação. A compreensão de um problema global é impossível enquanto não for ultrapassada a visão interna do grupo. Esta visão parcial alimenta inevitavelmente fantasmas e preconceitos sobre o desconhecido e bloqueará a compreensão da situação. A circulação das informações permitirá a compreensão da sua complexidade. Como a TS é um trabalho em grupo, a compreensão individual duma dada situação será confrontada à visão de outros participantes. Todas estas “inteligências" vão juntar-se e enriquecerem-se mutuamente. A inteligência colectiva é por conseguinte a visão de uma realidade complexa compartilhada por pessoas comuns. Temos dificuldade em aceitar que as pessoas afectadas por um problema ou situação são mais aptas em tomar decisões por si mesmas porque desde há muito estamos convencidos de que só os peritos sabem e podem decidir por nós. Esta inteligência colectiva e este conhecimento das situações são-nos à partida inacessíveis. Só vemos máscaras: a do polícia boçal, a do jovem delinquente dos bairros suburbanos, a do professor "sabichão”, a do político... Os objectivos específicos da TS é desenvolver a confiança pessoal e a responsabilidade, permitindo o surgimento do conflito, e todos esses elementos vão criar uma inteligência coletiva. A verdadeira inteligência coletiva só pode existir se as pessoas se libertarem dos seus medos e retomarem confiança neles. O facto de ser valorizado individualmente impede que se busque a sua identidade unicamente através da participação num grupo ou clã, o que resulta geralmente numa visão maniqueísta do mundo, fonte de violência. A ausência de inteligência colectiva e de circulação da informação leva cada grupo a contentar-se com uma compreensão limitada e simplista da realidade. A tentação será grande, nesse caso, de procurar bodes expiatórios e adoptar comportamentos paranóicos. A inteligência colectiva permite evitar que se atribua a causa dos problemas em um único protagonista. Precisamos sempre de inteligência colectiva para encontrar soluções adaptadas a uma comunidade de indivíduos. Estabelecer uma "fraternidade" conflitual Digamos sem angelismo que a fraternidade trata, em grande parte, os medos. Uma pessoa que teme não tem qualquer hipótese de lutar contra os seus medos. Escondidos bem no interior, não declarados, os medos roem a pessoa por dentro sem nunca manifestarem o seu rosto. Mas sua verdadeira face é muitas vezes menos preocupante do que o sentimento que nos deixa. Quando o grupo consegue nomear os medos, estes tornam-se significativos e a pessoa sente-se menos ameaçada e manipulada. A força desses grupos reside no aparecimento gradual de uma fraternidade conflitual. A fraternidade ocorre quando as pessoas se reconhecem nos outros. Normalmente sentimo-nos mais próximos das pessoas que se nos assemelham, mas o sentimento de fraternidade é ainda maior quando nos aproximamos de pessoas bastante diferentes de nós. Nós chamamos fraternidade conflitual a familiaridade ou empatia “progressiva” de uns em relação aos outros que não vai desembocar numa pacificação absoluta dos relacionamentos, mas sim torná-los possíveis. Se as pessoas estavam inicialmente em conflito podem, no final do trabalho de grupo, continuar a opor-se no que diz respeito às suas ideias e pontos de vista. O conflito é normal, devendo tornar-se simplesmente construtivo a fim de conservar a sua fecundidade perdendo a sua violência. Não há contradição entre o sentimento de fraternidade e de conflito. Fazer surgir o conflito A TS opera uma diferença entre violência e conflito. O medo do conflito, que impede uma confrontação autêntica, é de facto o medo da violência. O conflito faz parte da vida e é mesmo a principal característica da democracia. Viver em uma democracia significa estar sempre em desacordo, em debate, em contradição, no pluralismo das ideias. A violência é de certo modo o oposto do conflito, dado que em situação de violência contentamo-nos em evitar os outros ou de os agredir, sem que haja uma verdadeira confrontação de pontos de vista. Ela surge frequentemente quando não há espaço, tempo ou lugar para o conflito. A violência é inerente a uma representação dos outros muito fantasmada, por vezes diabolizada e algumas vezes desvalorizada. Em TS partimos de situações de violência para destrinçar entre fantasma e realidade de maneira a fazer surgir os verdadeiros conflitos e permitir que se exprimam, mesmo de maneira agressiva e erradamente considerada como violenta. O objectivo não é acalmar a violência mas extraí-la do seu manto de ódio e de desprezo deixando para que surja da confrontação uma centelha de inteligência colectiva. Ao exercermos violência sobre alguém, queremos negar-lhe a sua realidade. Em contrapartida o conflito, não significa a sua negação. Os outros existem realmente com as suas opiniões, interesses opostos, mas o debate é possível. O adversário é considerado como uma pessoa. A única maneira de transformar a violência em conflito é mostrar ao grupo o benefício das divergências existentes para resolver a situação. Cada ponto de vista contém um pedaço da realidade. Evitar os conflitos é a melhor maneira de permitir o ressurgimento da violência. Quando se impede as pessoas de falarem dando-lhes a entender que não é "bonito" dizerem o que pensam, especialmente quando são feitas afirmações demasiado categóricas, é mais do que certo que a pessoa silenciada não irá até ao fundo do seu pensamento. Ela não terá mais vontade de se implicar no trabalho comum e minará, através do seu silêncio, enervamento contido ou desinteresse, qualquer forma de cooperação que tente ser implementada. Ela exercerá uma violência invisível contra o resto do grupo e suscitará em contrapartida uma violência igualmente invisível por parte dos outros participantes. Os benefícios do conflito Contra todas as expectativas é muito mais fácil trabalhar com grupos de inimigos, em conflito aberto, do que com um grupo de profissionais pacifistas, humanistas, afirmando o seu desejo de construir uma "cultura da paz". Não é erradicando a violência que se resolvem os problemas. A violência acaba por desparecer quando se dá a oportunidade às pessoas de deixarem vir ao de cima os seus ressentimentos e dificuldades relacionais. Mas só na medida em que se aceitar ouvir, numa primeira fase, aquilo que a violência exprime. Considerar a violência como um sintoma Como sintoma, a violência interessa a TS que irá tentar compreender a sua origem. As violências visíveis, enquanto sintoma do mal-estar existente no corpo social, podem ser uma "oportunidade" para a comunidade, desde que saibamos aproveitá-las em vez de diagnosticar rapidamente a gangrena contentando-nos em amputar o membro doente sem tratar o corpo como um todo. A principal ferramenta da TS é a palavra, mas uma palavra “livre”, que não teme o julgamento do grupo nem do terapeuta. O clima predominante é de escuta. Não uma escuta "simpática", complacente, mas uma escuta que tenta evitar seleccionar, filtrar e julgar as palavras expressas. Trata-se em seguida de uma escuta terapêutica, no sentido em que esta rediz, reformula, ajudando a palavra a ir até ao fim, ultrapassando um primeiro nível de expressão para que a palavra se torne mais clara e, de certo modo, mais verdadeira. Conferir o poder de agir sobre o mundo É necessário que as pessoas passem do estatuto de vítimas ao de responsáveis e que o seu sentimento de impotência se transforme em sentimento de poder. Não só a aceitação de uma responsabilidade comum em qualquer situação difícil, acalma a violência, mas ela a transforma igualmente em capacidade de agir. O poder de agir só pode vir de nosso senso de responsabilidade pessoal. Um dos principais objectivos da TS é aprender a reassumir o sentido da responsabilidade e aceitar a capacidade de dano que existe em si. Temos de aprender a reconhecer a violência que nos habita. Sair da incapacidade de agir O maior problema de uma sociedade em crise não é a violência, mas sim o sentimento de impotência que vem sempre de algum lado. A nossa sociedade sofreu de várias crises simultaneamente: • autoridade Cada um de nós suporta essas crises em diferentes graus e face a estes múltiplos desafios, a esta mistura de ansiedade e de medo, o sentimento de impotência vai aumentando. Isso implica, em TS, interessarmo-nos pelas necessidades básicas insatisfeitas das pessoas. Ao sentirem-se reconhecidos, amados, em segurança e, por assim dizer, aspirados em direcção ao sentido, os participantes recuperaram forças e contribuem ao mesmo tempo para a mudança. Saem da incapacidade de agir para de se tornarem agentes de mudança. Do estatuto de vítima ao de responsável A TS aplica-se em fazer que o indivíduo passe de uma posição de vítima à de pessoa responsável da sua impotência, à capacidade de agir. Em TS os objectivos prosseguidos – realistas para que sejam realizáveis - devem ter à partida um projecto comum, como objectivo. A finalidade não é tratar cada individuo, mas sim efectuar colectivamente a transformação. "Entre o entusiasmo e a depressão lúcida" Observa-se inicialmente num grupo que existem dois modos extremos: • a depressão lúcida • o entusiasmo utópico Ora nós temos de encontrar um equilíbrio entre as duas posições "Não é possível fazer nada” e “Tudo se arranjará”… Isso acontece quando reconhecemos as dificuldades e sonhamos simultaneamente com uma "melhoria", avançando para a meta equipados com as condições que favorecem o sucesso e motivados para a mudança. O objectivo não é mudar a sociedade, mas ver claramente e concretamente por que é que é tão difícil evoluir, tanto a nível individual como a nível social. Alterações individuais e transformações institucionais Uma vez mais, a TS não pretende mudar os indivíduos. Ela cria as condições para que surja um desejo de mudança, que é obviamente diferente conforme as pessoas, propondo um contexto reabilitador que supera as resistências pessoais à cooperação, ou seja, viver e trabalhar com os outros. Como diz Freud "Ser capaz de amar e de trabalhar", ou seja, sair do egoísmo ou do ‘fechar-se sobre si mesmo’ para ser capaz de ir ao encontro dos outros trabalhando num projecto comum. • vão da vitimização à responsabilidade Isso sempre no sentido de uma maior cooperação e aceitação do conflito, do qual decorre uma abordagem mais complexa da realidade. A TS não se preocupa em levar as pessoas a mudarem individualmente mas sim, a partir das transformações que ocorrem durante o trabalho de grupo, utilizá-las em vista de mudanças colectivas. O objectivo é político O objectivo é político, no sentido em que se trata de criar espaços mais democráticos que tornem o debate conflitual possível, dando às pessoas o poder de agir sobre o seu contexto ou, de maneira mais vasta, sobre a sociedade. Criar instituições saudáveis, menos patogénicas, criar ambientes colectivos mais favoráveis ao desenvolvimento pessoal, tal é o dever de uma democracia viva. Nesta perspectiva, eminentemente política, a TS é o instrumento que permite a adaptação contínua das instituições pondo-as ao serviço dos cidadãos e criando ambientes sociais saudáveis e reparadores. Prática da terapia social A TS é uma abordagem que permite intervir em situações de crise e de tensão extrema, junto de grupos que trabalham ou vivem juntos, muitas vezes sem o terem escolhido, e incapazes de se entenderem sobre objectivos consensuais. Ela cria o vínculo social e permite sair da violência através da aprendizagem do conflito. Ela oferece a possibilidade de reconstruir um projecto cidadão. O objectivo final é fazer surgir do grupo uma inteligência colectiva, capaz de contrariar a crise, sempre em consonância com o problema que ocupa os participantes. O contexto de terapia social Trabalhamos com todos os intervenientes no sistema, de preferência sem escolher as pessoas mais susceptíveis de aderirem às alterações desejadas. Pelo contrário, tentamos integrar no trabalho de TS todas as pessoas, independentemente das suas opiniões, origem, capacidade de mudança e de cooperação. O terapeuta social está ao serviço do sistema, não intervém para defender um partido contra o outro, não decide quem está certo ou errado. Ela está lá para permitir que todos se tornem responsáveis no confronto com os outros, adquirindo assim uma visão mais inteligentes duma realidade complexa. Dar-se-á a oportunidade às pessoas e grupos que, precisamente, sempre evitaram encontrar-se, de se reunirem e comunicarem. As modalidades postas em prática apenas permitirão encontros improváveis num ambiente que permite aos seres humanos desenvolverem a sua empatia e relação com os outros. Lembrança das 4 regras fundamentais: • liberdade de participação • proibição de exercer violência física ou de um qualquer comportamento repreensível aos olhos da lei • confidencialidade: proibição de divulgar no exterior o que se diz no interior do grupo • presença obrigatória
Antes de ser um “interveniente” ou um ou um facilitador, usando métodos convencionais de animação de grupos, o terapeuta social é sobretudo um “psicoterapeuta". O trabalho sobre si mesmo permite-lhe visitar a sua própria história de vida e conhecer as suas fraquezas. Ele terá de "curar-se" parcialmente, aprendendo os mecanismos terapêuticos através da sua própria experiência, única aprendizagem válida quando se trata de ajudar as pessoas a curarem-se. "Aprendendo a curar-me para ensinar os outros a curarem-se" O “terapeuta ferido " O terapeuta social é um "terapeuta ferido" o que significa que pelas suas feridas e carências é semelhante aos outros, de modo algum um ser superior. Ele não tenta apresentar-se como modelo de referência, nem sequer atingir a perfeição ou adoptar a "boa atitude", mas permanece espontâneo e autêntico, evitando agradar a qualquer custo assim como hostilizar o grupo apontando a fraquezas de cada um. Esta postura tem algo de especial, pois consiste em beneficiar da totalidade da pessoa do terapeuta social, com suas zonas de penumbra e de claridade. Tal postura permite aos participantes, por um lado, experimentarem um contra modelo da autoridade – desta vez falível – e, por outro lado, aprenderem a aceitar-se a si mesmos com os seus pontos fortes e as suas fraquezas. Isto implica uma atitude de "ferido" consciente, habitado pelo desejo de curar. Ao assumir-se como tal o terapeuta preserva toda a sua capacidade de compaixão e de fraternidade. Não é menos doente do que outros, mas sabe que está doente e que tem aprendido a controlar a sua doença. Esta postura permite que o paciente proceda do mesmo modo, tornando-se consciente das suas feridas e procurando o remédio nele próprio: tornar-se, em suma, o seu próprio médico interior. Para lá chegar, o terapeuta deve adquirir uma autoconfiança suficiente e observar correctamente as suas feridas, fraquezas e limitações. Não procurará ou fingirá ser perfeito, nem alimentará essa ilusão para si próprio ou para pessoas das quais será responsável. Só de este modo poderá ajudá-las a avançar em direcção à sua aceitação e à auto-estima, conduzindo o grupo no seu conjunto para a independência e responsabilidade. Trabalhar de maneira "autêntica" sem esconder as suas fraquezas não é fácil, pois estamos socialmente acostumados a fingir a perfeição. Por conseguinte, o terapeuta social deve dar uma imagem honesta de si mesmo, feita de sombras e de luz, não uma imagem fabricada, focalizando-se exclusivamente nos seus pontos fortes. A partida, isso vai provocar reacções negativas assim como gerar um período de deriva e de transferência negativo que o terapeuta viverá dificilmente, tanto mais que as reacções podem ser violentas e utilizarem precisamente os seus pontos fracos para o atacarem. Daí a necessidade – para superar este momento e não o rejeitar, dado que ele faz parte do processo – de aceitar plenamente as suas zonas de sombra. O terapeuta pode ficar abalado por estes ataques se ele próprio desprezar ou esconder as suas fraquezas. Se ele as conhece e aceita, considerá-las-á como necessárias ao desenvolvimento da autonomia das pessoas. Isso leva os participantes à seguinte reflexão: se o interveniente pode mostrar as suas fraquezas e vulnerabilidade diante do grupo, sem que o desprezemos, eu também posso fazê-lo. Aceitar seus pontos fracos, significa igualmente aceitar seus erros. O terapeuta social não é um super-homem incapaz de se enganar. A sua confiança no grupo, nele mesmo e no trabalho colectivo, permitem-lhe enfrentar e assumir as suas emoções. A finalidade não é cometer erros, mas um "erro" do terapeuta pode até tornar-se benéfico para o grupo. Tudo é bom, trabalhemos com tudo o que ocorre no seio do grupo. Um líder que “não sabe” A autoridade paternalista dos líderes que precisam de ser amados, acolhidos e úteis, valorizando os “bons subordinados” que a satisfazem e que se tornam seus apoiantes indefectíveis, leva a que ninguém tenha interesse em mostrar-se tal qual é, coma as suas zonas de sombra. Deste modo, a autoridade paternalista mantém uma forma de poder pessoal superior ao resto do grupo. Considerada como quem sabe e pode salvar, ela impede o grupo de responder às suas próprias necessidades e de se capacitar para fazer surgir uma Inteligência colectiva e uma cooperação. Ela é, de certo modo, violenta. Em TS, é impossível prever o que vai acontecer num grupo. O terapeuta social não sabe antecipadamente como é que o trabalho evoluirá. Na verdade, como à que podemos esperar transformar um grupo que espera tudo de um "especialista" e se submete a um objectivo fixado por outros? A resposta só pode ser negativa. Por razões terapêuticas e de eficiência, falar em termos de programa de acção é violentar as pessoas na medida em que as suas necessidades não são consideradas. Deve-se partir da premissa de que são os participantes que possuem o saber e os meios para regular os conflitos. Presume-se que o terapeuta social trabalhará "com” o grupo e não "sobre" o grupo. É um líder que não sabe. Manter-se-á aberto a todos os aspectos de um problema social não impondo qualquer solução mas, pelo contrário, ajudando o grupo a atingir os objectivos fixados em comum. Não só se recusa a ter respostas – mesmo se como cidadão possa ter as suas opiniões ou convicções – como se impedirá de influenciar o grupo. Isto também implica que tenha de assumir riscos, aceitar fracassos e incertezas. A partir do momento em que se conduz um trabalho sem impor os seus próprios objectivos ou o seu saber, a ansiedade está presente; o grupo vai procurar o seu caminho na itinerância. De facto tudo pode acontecer quando não há um programa preestabelecido, mas é deste risco que vamos extrair o máximo de fecundidade em termos de produção de ideias e de mudança. Os fenómenos de grupo O acompanhamento da transformação dos fenómenos de grupo permite que sejam curadas as doenças sociais e o mal-estar individual. Todos os grupos funcionam inicialmente nos da mesma maneira: • Uso de uma máscara. Os participantes serão inicialmente tais quais são na vida quotidiana. Não é trivial estar-se na frente de estranhos e num contexto desconhecido. Isto produz fenómenos de protecção, de intimidação, de reconhecimento de vários medos. Todos podemos mobilizar e desenvolver, conforme as circunstâncias, determinadas facetas da personalidade que permitem não sermos demasiado vulneráveis durante os contactos iniciais, geralmente difíceis. Há quem use uma máscara pacifica e simpática, outros a do perfeito profissional, enquanto outros a do rebelde... • Insegurança diante dos outros. O encontro com desconhecidos reaviva os medos, os fantasmas, ocasionando todo o tipo de projecções e de transferência. • Considerar-se vítima. No início de uma TS, todos dizem ser vítima dos outros ou vítima do sistema. • Falsa representação dos outros. Toda agente se clausura numa visão simplista dos outros. Os membros do grupo fazem generalizações a partir do que imaginam saber sobre a profissão de um dos participantes... • Necessidade de um guia. Certos participantes, especialmente num primeiro tempo, esperam que a animador lhes ofereça um contexto benevolente e acolhedor, não suportando que ele manifeste inquietudes ou incertezas. • Escolha entre a submissão ou… a rebelião. Alguns idealizam o terapeuta, objecto de sua admiração, enquanto outros o diabolizam quando ele revela facetas da sua personalidade que parecem desagradáveis ou deslocadas. • Ser de um ou outro clã. Inicialmente as pessoas avaliam-se, sendo frequente que se reagrupem em seguida entre elas por conhecimentos ou afinidades e formem clãs entre pessoas que não se receiam e são capazes de se tranquilizar mutuamente. O grupo em terapia social O grupo pode ser definido como um conjunto de indivíduos mantendo relações recíprocas entre eles. Deste modo, é no interior do grupo que as pessoas vão experimentar concretamente e de maneira privilegiada o seu vínculo em relação aos outros. O grupo de TS torna-se um microcosmo da sociedade. Os conflitos, as violências, os medos e os ódios que os participantes experimentam na sua relação uns com os outros, serão revividos, tal como as blocagens e dificuldades de cooperação. De acordo com K. Lewin: "a essência de um grupo não reside na similaridade a ou dissimilaridade dos seus membros, mas na sua interdependência. Pode-se caracterizar um grupo como um todo dinâmico, o que significa que uma mudança no estado de qualquer uma das suas partes implica uma mudança no estado de todas as outras partes que dela dependem”. No início de uma TS, as pessoas são simplesmente "reagrupadas", mas para que se transformem em grupo, um trabalho específico deve ser feito. É esta uma etapa essencial do método e não um dado previamente estabelecido. Não é vantajoso reunir apenas pessoas "convencidas", desejosas de mudança, de Ser confrontado com as realidades do ser humano, isto é, às resistências, às oposições, às cóleras, às impossibilidades de cada um, é uma fonte de riqueza. O método Ele consiste em reviver, no ambiente protegido de um grupo, todos os bloqueios ou entraves à cooperação experimentados pelas pessoas na sua vida social. A tomada de consciência da sua responsabilidade individual em relação aos outros dá origem a um desejo de mudança que pode ser posto em prática no grupo e assim promover uma cooperação mais eficaz. Tudo que vive em maior escala entre as pessoas no seu trabalho e as suas múltiplas Cada participante exprimirá as suas blocagens ou dificuldade em trabalhar e viver com os outros. Isto leva gradualmente os participantes a querer experimentar novas formas de se relacionamento. Este desejo de mudança não lhes será imposto pelo terapeuta com o fim de melhorar a cooperação ou uma melhor compreensão entre os participantes – tal como é o caso da mediação – mas sim de os acompanhar na expressão mais livre possível dos seus medos, dos seus ódios e, portanto, da sua violência. Essa liberação da palavra é possível através da criação dum clima de confiança. Este método é particularmente exigente não podendo ser acompanhado por formas de intervenção que estejam em contradição com ele, tais como a aprendizagem de uma boa comunicação ou a imposição de exercícios destinados a evitar tensões, fadiga, tédio, descontentamento, os quais, em TS, são sintomas muito importantes da situação relacional da pessoa. Ser firme nessas escolhas metodológicas não é fácil, tanto mais que o terapeuta, objecto de muitas reacções hostis, pode ser tentado em procurar satisfazer os desejos e necessidades imediatas das pessoas a fim de lhes agradar ou porque receia vir a ser rejeitado. No entanto, é mantendo esta orientação metodológica que a realidade dos conflitos e das violências, de que os participantes são vítimas ou autores, pode surgir em plena luz do dia e transformada. A terapia social e o modelo pesquiza - acção O grupo TS, tal como em "pesquiza - acção" (K. Lewin), é essencialmente um espaço de aprendizagem de novos comportamentos. As pessoas experimentam a mudança ao fazerem uma pesquisa sobre si mesmas e sobre os grupos sociais em geral. O processo de mudança é feito em duas etapas: • primeiramente a pesquisa, o questionamento, a tomada de consciência • em seguida, as propostas e resoluções de problemas O grupo é uma sociedade em miniatura aonde as pessoas reproduzem involuntariamente os problemas vividos no exterior. Deste modo o grupo transforma as pessoas em agentes de mudança da sociedade no seu conjunto. A função terapêutica da dinâmica de grupo vem em grande parte desta interacção entre as pessoas. Estas entreajudam-se descobrindo os seus sofrimentos mútuos e reconhecendo gradualmente, como quem explora um jogo de espelhos, as suas próprias dificuldades, os seus próprios desajustamentos, até poderem tomar consciência de sua resistência à mudança. Aquilo que é mais terapêutico é, em última análise, a descoberta da sua própria responsabilidade: por um lado eu sou responsável pelo facto de que nada muda e, por outro lado, tenho o poder de gerar a mudança. Criar um clima de confiança Convocar um grupo não é constituí-lo: a primeira acção é neutra, a segunda requer um compromisso. Criar um clima de confiança a fim de que todos possam mostrar-se tal qual são, sem receio de serem julgados pelos outros ou de serem rejeitados. À medida que avança o trabalho terapêutico, os participantes vão ser os protagonistas das suas próprias vidas – especialmente social e profissional – debaixo do olhar dos outros. É esta observação que os tornará conscientes das suas atitudes, dos seus comportamentos, das suas posturas e maneiras de ser. Tal como num laboratório aonde se procura recriar as condições naturais, aqui, o método consiste em recriar a "doença" social para que esta seja encenada e tornada visível. Salvo que os participantes não são cobaias mas sim o equivalente do pesquisador; eles utilizam-se mutuamente para compreenderem os seus disfuncionamentos individuais, colectivos, recíprocos. É um processo que permite uma inter-formação, uma inter-peritagem, uma inter-terapia. Os grupos criados em laboratório poderão posteriormente "modelizar" novos comportamentos à escala da sua organização e da sociedade. A este segundo nível, eles experimentarão a mudança depois de terem experimentado os disfuncionamentos. Certas fases do processo são emocionalmente degastadoras porque os participantes precisam de ultrapassar e questionar o seu funcionamento habitual. Ora um grupo não vai aceitar entrar nesse processo a não ser que se sinta em segurança. É por isso que é primeiramente necessário criar uma indispensável relação de confiança e provocar uma transferência positiva para a pessoa do terapeuta (bom médico). Este deve ser reconhecido como competente, útil ao grupo e tendo uma boa capacidade de escuta. A confiança também deve ser criada entre os participantes: • Respeito das regras • Liberdade de expressão: seja o for dito não haverá represálias • Se as pessoas sentem que podem expressar-se sem correrem riscos, permitir-se-ão um maior envolvimento • Nenhuma palavra é estúpido, trivial, absurda e inaceitável O terapeuta deve saber acolher todas as informações (palavras), escutá-las e não julgá-las seja qual for o carácter extraordinário, estranho ou patético de certas afirmações. A hipótese é-se que elas têm significado na medida em que são a expressão particular das necessidades das pessoas. O contrato também é útil para estabelecer este clima de confiança. Todos devem sentir-se incluídos no que for decidido durante esse trabalho. Organizar encontros improváveis A noção de encontro é essencial. Os sectores sociais estão cada vez mais separados uns dos outros, tornou-se imperativo incentivar reuniões que podem ser descritas como "improváveis" entre pessoas que não têm oportunidade de estar juntos e que, além disso, que não o desejam necessariamente. Procurando o seu caminho na errância A errância é sempre um momento difícil. Parecer ser uma fase de insucesso porque é o momento em que todos desanimam, incluindo o terapeuta, e porque ninguém vai saber para onde vai o grupo nem como ele vai sobreviver. Os participantes irritam-se, aborrecem-se, enervam-se, quando deixam de ver claramente a tarefa e os meios de que dispõem para a realizar. O terapeuta também poderá ficar carregado de sentimentos negativos não sabendo o que fazer para poder avançar. O que é importante para ele é saber reconhecer esta fase como normal e, sobretudo, necessária ao avanço do processo. Os participantes ao começarem a ganhar autonomia agarram-se ao terapeuta, crendo que ele deve ajuda-los e que tem necessariamente uma solução. Em TS vamos deixar instalar-se esta fase de errância, na certeza de que, necessariamente, ela faz sentido e de que algo no grupo está procurando surgir, mesmo se ainda não se sabe o quê. Não é o interventor que provoca esta inquietude, mas ela vai certamente manifestar-se arrastando igualmente o próprio terapeuta nesse sofrimento através das suas dúvidas e receio de fracassar. Ele também vai entrar em situação de errância Nessa situação o que é importante é o caminho percorrido em conjunto, apesar de ninguém saber aonde ele conduz. Do mesmo modo que num sonho, a errância tem um sentido que se descobre no fim da caminhada. Não é um obstáculo, mas um passo inevitável. Ela indica que a solução não é predeterminada, mas que deve ser encontrada em conjunto. Harmonização das diferentes motivações (contrato) Uma vez que é identificada a verdadeira motivação das pessoas, o seu ponto de ancoragem, isto é, o elemento que lhes permite pensar que elas têm algo a ganhar com esta história, então o trabalho terapêutico pode começar. Colocam-se então as motivações individuais no pote comum para dele extrair em seguida alguns eixos principais podendo satisfazer o grupo. O resultado final de um contrato em TS nunca corresponde ao que o terapeuta quer, nem ao que o patrocinador pretende, nem ao que o grupo ou qualquer participante espera. No entanto, no final, e de maneira não organizada previamente, ele corresponde ao objectivo que todas as partes desejavam atingir no início do trabalho. Há sempre um ponto de ancoragem capaz de envolver todos os participantes e permitir que o trabalho tenha sentido e atinja resultados concretos, satisfazendo as necessidades de todos em relação a um problema comum. Enquanto o projecto não fizer a unanimidade, não pode avançar. Isso leva tempo, mas é importante que não se queimem as etapas. Para harmonizar as motivações, é preciso favorecer a expressão dos sofrimentos – estimulá-la mesmo - dando vazão a sentimentos como a tristeza, a raiva, o medo. É a expressão desses sentimentos "negativos" que permite compreender quais são as necessidades reais das pessoas. O grupo auto-curativo O grupo constituído tem por função principal a de ser capaz de encontrar as suas próprias maneiras de curar. É por isso que o terapeuta social não pode trabalhar com um programa pré estabelecido, nem presumindo resultados a alcançar. Ele ignora os problemas, só tem preconceitos. Ora com base neste princípio o terapeuta social permitirá que as pessoas “aprendam” progressivamente por elas próprias. Elas são simultaneamente especialistas e médicos de todo o grupo. O que vai caracterizar um grupo constituído é a sua aptitude para a mudança. À partida qualquer grupo terá tendência para se mostrar vítima, ou impotente, devido ao hábito repetido de deixarmos os outros decidirem por nós. Mas alcançará progressivamente uma maior autonomia soltando-se das garras desta autoridade inconsciente. A submissão, a rebelião e a passividade serão substituídas pela autonomia, acção e criatividade. Cada pessoa adquirirá confiança em si, mas também no interesse de uma boa cooperação com os outros. Eles percebem que podem tornar-se parceiros das autoridades, dos outros e da comunidade. Farão também a experiência de que, em conjunto, incluindo as autoridades, serão mais produtivos e também mais justos e mais Inteligentes. A regra de ouro do terapeuta é escutar sempre o que se passa, a cada instante, no grupo. Ele não deve obstinar-se nas suas previsões nem, por comodidade, excluir os imprevistos. O terapeuta ajusta constantemente o tiro em função dos acontecimentos. Tal é a condição para que acompanhe realmente o processo, com os imprevistos e errâncias que deles decorrem. Embora esta posição seja difícil de assumir ela é a condição sine qua para o exercício desta profissão que visa o desenvolvimento da autonomia das pessoas. O terapeuta é o equivalente de um guia de montanha que ignora a maneira como o grupo vai caminhar, a que ritmo, quais os obstáculos que vai encontrar e como vai ultrapassá-los para chegar ao cimo da montanha. Ele não sabe no lugar dos outros embora saiba em que direcção se dirige, qual é o objectivo final decidido inicialmente. Os instrumentos da terapia social A palavra ‘instrumento’ pode sugerir uma manipulação consciente ou inconsciente por parte do terapeuta. Mas é claro que ele não vai fazer diagnósticos, mas sim respeitar o ritmo das pessoas oferecendo a cada participante a oportunidade de expressar quem ele é e quando quiser. Os instrumentos da TS são: • Um grupo que irá servir como um espelho • Um terapeuta consciente das suas próprias feridas • A escuta • A reformulação • Uso da transferência e da contratransferência A postura do "terapeuta ferido" é central para o método Mais do que uma ferramenta, esta atitude revela de que maneira a personalidade do terapeuta é essencial para o sucesso processo. A comunicação autêntica A comunicação não pode efectuar-se enquanto subsistirem distâncias psicológicas fortes entre pessoas. Na realidade, essas distâncias são correntes e constituem obstáculos para o diálogo social e abertura possível. Alguns fenómenos psíquicos daí decorrem: tanto as blocagens, isto é, a impossibilidade de alguns em se aproximarem dos outros, como as filtragens, ou seja, o uso de uma comunicação fingida. As blocagens são menos problemáticos, porque é sempre possível tentar restabelecer o diálogo, enquanto os filtros darão a ilusão da existência de comunicação embora, na realidade, esse tipo de intercâmbio se caracterize por um excesso de reservas e resulte em ambiguidades e equívocos que provocarão tensões entre as pessoas. Em TS os grupos farão a experiência de uma comunicação autêntica. Aprenderão a superar os mecanismos de defesa e a promover atitudes de abertura em relação aos outros. O terapeuta deve dar o exemplo e os membros do grupo devem procurar ser autênticos nas suas relações com os outros: serem si próprios, estarem presentes no relacionamento, serem abertos e não defensivos em relação aos seus próprios sentimentos, dando provas de transparência. Aprenderão assim a ser empáticos, ou seja, a considerar os outros, a sua identidade e as componentes emocionais inseparáveis da realidade. A escuta e a reformulação O psicoterapeuta pratica "flutuante" confiando na sua intuição, no que ele detecta por detrás das palavras, por detrás das expressões faciais e corporais. Ouve o que é dito, mas também o que vê e sente, a linguagem não-verbal dos participantes. Escuta-se igualmente ele próprio, tentando decifrar, compreender, o que sente (mal-estar, tédio, alegria...). Os seus sentimentos e impressões são intuições que têm de ver com a sua qualidade de escuta. Se ele se aborrece, por exemplo, é porque há qualquer coisa no grupo que deve ser identificada (a errância, os não-ditos...) A reformulação É um instrumento importante que ajuda a dar substância ao processo e uma maior visibilidade. O terapeuta, ao reformular, ajuda o grupo a compreender o que está sendo dito, o que se passa. A reformulação também fornece uma dupla segurança aos participantes: • Em primeiro lugar, sentem que tudo que diz é tido em conta, escutado e, em seguida, utilizado em vistas da realização conjunta • Em segundo lugar, as expressões confusas e díspares podem ser retomadas e associadas aos objectivos determinados pelo grupo O grupo vê melhor para onde vai e para que servem essas palavras à primeira vista confusas ou sem relação com o trabalho em andamento. Transferências Os conceitos de "transferência" e de "contratransferência" vêm de Freud. Eles reflectem certas perturbações nevróticas que se manifestam através da repetição de uma relação à partida infantil mas de que a pessoa não é consciente. • A transferência é uma espécie de "projecção", feita em relação a uma pessoa: a imagem de alguém com quem tivemos um relacionamento muito íntimo, sobrepõe-se a uma pessoa desconhecida • A contratransferência diz respeito às reacções inconscientes à transferência. Ele pode afectar igualmente o próprio terapeuta. A diferença é que o terapeuta assume as suas reacções projectivas, reconhecendo-as e sendo capaz, em teoria, de distinguir entre quem é e aquilo que ele projeta. Em TS, a relativa intimidade criada entre os indivíduos, mas também com o terapeuta, permite que uma pessoa "reviva" uma problemática emocional que lhe é própria e que pode na verdade, referir-se à sua infância. A diferença em relação a uma sessão de psicanálise é que o transferência vai realizar-se em referência à vida social dos participantes. O objectivo não é tratar os indivíduos nesses grupos mas sim de saber em que medida, por exemplo, o elo com a autoridade dificulta trava ou impede uma boa cooperação no seio do grupo. Poderá uma terapia social substituir a terapia individual? O TS não pretende substituir uma terapia individual. Os objectivos são diferentes. Na TS não lidamos com uma pessoa doente que precisa ser tratada e que geralmente é voluntária, mas com uma colectividade que não consegue sair de um impasse ou duma situação de violência. Os participantes vivem apesar de tudo um processo terapêutico focalizado sobre as relações doentias que os impedem de viver e de trabalhar juntos. O resultado e uma parte do processo aproximam-se bastante de uma terapia, dado que a pessoa recria uma relação a si mesma e aos outros menos afectada por fantasmas e preconceitos. Se a TS não tem os mesmos objectivos que a terapia individual, ela tem apesar disso um efeito terapêutico ao curar as relações da pessoa consigo mesma, com os outros e, especialmente, com as figuras de autoridade, o que representa um considerável aquisição pessoal. A TS é uma psicoterapia cujo objectivo não é curar as pessoas, mas sim melhorar as É praticada, destacando os filtros emocionais e ideológicos que nos impedem de ver a realidade em toda a sua complexidade. Ela permite que os indivíduos envolvidos num um problema colectivo exprimam o seu sofrimento, compreendam as suas "estratégias" de sobrevivência e, consequentemente, os seus comportamentos no seu relacionamento com os outros. Essa conscientização dos bloqueios pessoais – e institucionais – permite a aprendizagem da vida e do trabalho em comum, incluindo a integração do conflito como um valor positivo. A duração da terapia social O tempo necessário pode variar consideravelmente (dependendo do financiamento, da encomenda inicial, dos objectivos, dos meios disponíveis, da disponibilidade dos participantes, etc.) Quanto mais o trabalho for longo, mais ele é rico e mais se ganha em profundidade e subtileza de análise. O princípio destas formações-acções é deixar vir ao de cima os disfuncionamentos das relações quotidianas e experimentar uma nova maneira de viver juntos. Esta experiência, mesmo muito breve, causa sempre mudanças individuais e institucionais. Uma abordagem em TS dura em média dez dias. Este tempo é conhecido à partida pelos participantes e a duração é conscientizada pelo grupo. Assim, no final deste procedimento, são elaboradas propostas ou um projecto. Não se prevê a determinação do que acontecerá posteriormente a estas propostas ou projecto, embora se trate dum aspecto do processo que terá sido reflectido a partir do momento em que foi solicitado. Assim podemos concordar que um responsável da instituição, desde que não seja o superior hierárquico directo dos membros do grupo, possa assistir às sessões da terapia a fim que ele compreenda a dinâmica e prossiga o trabalho de uma forma ou de outra, seja por um projeto concreto, seja pela continuidade das reuniões entre os membros de uma colectividade. A duração de um TS depende dos objectivos formulados: pode ir de uma simples sensibilização de profissionais até a uma experiência inovadora de democracia participativa num bairro. Um dia pode ser suficiente para criar um espaço de encontro entre pessoas que têm dificuldade em viver ou trabalhar juntas, mas é preciso muito mais tempo para mobilizar todos os intervenientes de uma cidade em torno de um problema que causa permanentemente sofrimento e violência. As condições de um TS bem-sucedida As instituições nem sempre têm uma percepção clara do valor de fazer participar pessoas não voluntárias num processo deste tipo. O voluntariado parece-lhes indispensável para a motivação, permitindo às pessoas de se implicarem resolutamente na acção. Ao facilitar a expressão dos sofrimentos de uns e outros, para os aliviar, a TS cria a Lugar e papel da instituição patrocinadora A TS começa, geralmente por um pedidio da instituição. É ela que deve solicitar a TS porque, no final, é ela que está em terapia. É claro que o objectivo é que os indivíduos envolvidos na abordagem terapêutica se transformem, mas isso é secundário. O principal objectivo é que as transformações individuais desemboquem em transformações da instituição, as quais terão como efeito mudanças sociais. Deste modo o pedido deve ser feito por quem deseje e aceite a transformação ou seja, a instituição, desde que, obviamente, ela se tenha apercebido que ela não está bem e que precisa de "fazer uma terapia”. Uma equipa, uma associação também pode beneficiar deste tipo de intervenção. O pedido é geralmente o resultado de um processo demorado que exige várias reuniões e discussões com a instituição, representada por um responsável com poder suficiente e cuja legitimidade junto dos participantes seja indiscutível. O pedido é sempre formalizado pela direcção da instituição, jamais pelos seus agentes, tanto mais que a direcção terá como tarefa a sua integração na abordagem. Não em quantidade – todos os agentes não participam – mas em representatividade. De qualquer modo uma abordagem TS é impossível se já tiver sido feito um diagnóstico de uma dada situação: por exemplo, se forem mencionados no intitulado do pedido comportamentos discriminatórios por parte dos agentes ou ainda se for pedido que se trabalhe sobre a violência dos jovens. Partir daí já é, neste último exemplo, considerar os jovens responsáveis do problema. Uma abordagem TS não começa por respostas dadas adiantadamente por uns e por outros. Ela nem sequer parte de um problema já identificado, visto que nunca foram ouvidas as informações dadas por quem vive o problema, mas sim de um mal-estar que se concretiza por sintomas. Ela apoiar-se-á no desejo da instituição para que cesse o mal-estar. Idealmente, a instituição comanditária deveria ser o mais possível implicada na abordagem. Paralelamente, seria necessário que os decisores seguissem o mesmo processo terapêutico. A “fortiori” se o objectivo de chegar a mudanças institucionais tiver sido claramente enunciado. Constata-se, na prática, que a instituição acompanha o processo de maneira fragmentária, seja por falta de tempo e/ou de motivação. São assim necessários encontros regulares com os comanditários para avaliar o avanço do processo e dos pedidos que lhe são dirigidos. Limites e riqueza duma abordagem TS À excepção dos limites externos – a duração de uma TS e a ausência dos responsáveis – os limites da abordagem são estabelecidos pelos participantes e pelas instituições. Não é de facto possível antever até onde pode ir uma pessoa na sua capacidade de cooperação e de superação dos seus preconceitos, ódios ou medos. Os limites dependem assim das patologias individuais, sendo dado que nunca se sabe que tipo de pessoas vamos encontrar. Os limites também têm algo a ver com os funcionamentos colectivos em que não é possível tocar, pois isso poria em risco a própria instituição. Os limites são omnipresentes e é necessário trabalhar com eles. A Terapia Social não é todo-poderosa Isso seria contrário à sua vocação. O terapeuta não é senhor das transformações individuais, não pode decidir, nem mesmo tem o poder de fazer com que as pessoas se tornem cooperativas ou sociáveis. A TS não tem como objectivo mudar as pessoas mas sim criar as condições que vão tornar possível a mudança através do estabelecimento de um contexto propício à sociabilidade. O terapeuta não controla a maneira como se vai processar a mudança. A TS permite (através das técnicas e métodos descritos) recriar as condições da sociabilidade (ser valorizado, não ser julgado, estar relacionado com os outros) mas dentro dos limites impostos pelos seres humanos e suas patologias. A TS não tem por vocação erradicar totalmente o ódio e a violência que habitam os indivíduos; ela pretende simplesmente diminuir essa parte de ódio e de medos, ou fazer com que eles não se sobreponham aos desejos de sociabilidade. O objectivo final não é “lutar contra” as descriminações ou violência mas encontrar, a partir delas, os fermentos ou os vectores da cooperação ou da sociabilidade. A atitude terapêutica consistirá em não negar a violência, que será considerada como uma tentativa de adaptação a uma determinada situação e como sinal ou sintoma informando que algo não funciona. Tal como qualquer prática terapêutica, a TS não pode garantir transformações duráveis mas tão só acompanhar as transformações possíveis. É nisso que ela é um método “cooperativo” e “não-tecnocrático”. É evidente que o terapeuta é um especialista no funcionamento psíquico e em dinâmica de grupos, mas de modo algum perito nos problemas vividos pelos participantes: ele ignora tanto como eles a maneira de se comportar correctamente numa dada situação de violência ou como entrar em contacto com os habitantes de um bairro. Com efeito, o terapeuta não ensina nem inicia as pessoas a uma qualquer técnica. Ele só permite que indivíduos constituídos em grupo comecem a cooperar. Dever-se-ia igualmente distinguir a TS das práticas de mediação. O seu objectivo não é somente que indivíduos ou grupos que se opõem sejam capazes de se entender e trabalhar juntos – mesmo se isso é uma etapa necessária – mas que sejam capazes de modificar a sua situação, de maneira a que uma tomada de consciência individual possa levar a mudanças institucionais e sociais. A situação inicial problemática deve ou deveria evoluir (através de uma abordagem TS), dado que as pessoas que estão na sua génese ganharam ou reconquistaram poder e capacidade para agir. Isso levá-las-á a transformar o que vivem comummente, em especial através de mudanças e transformações no interior das instituições. A TS é uma aposta que se repete constantemente. A experiência mostra que se formos capazes de criar um ambiente seguro que tranquilize os medos dos seres humanos, estes reencontram naturalmente a sua sociabilidade com resultados úteis na sua vida social. É urgente que aprendamos individualmente e colectivamente a assumir a nossa humanidade. O homem e o planeta estão em perigo. Uma cura colectiva, que leve em conta tanto a necessidade de transformação pessoal como a necessidade de transformar as estruturas sociais, é necessária. Três principais desafios · Formar as pessoas que deverão acompanhar os processos de reconciliação e de cura colectivas · Educar para a vida democrática a fim de fazer face às tentações totalitárias · Transformar a violência e a loucura que fazem obstáculo a uma vida colectiva proveitosa Por que razão não aceitar que se deixe intervir a nossa responsabilidade naquilo que nos acontece? A TS é uma regulação das paixões. Ela faz com que seja possível viver com elas. Esta integração do aspecto racional do nosso psiquismo representa a melhor prevenção possível contra a violência. Aquilo que está na origem da violência é uma representação mental negativa dos outros, representação desumanizada e mesmo diabolizada. É a nossa incapacidade em olhar para as nossa zonas de sombra e, consequentemente, em reconhecer a nossa responsabilidade. A TS oferece-nos pistas de compreensão e ferramentas concretas para convivermos com a loucura sem nos deixarmos destruir por ela. A TS coloca a responsabilidade no centro das relações humanas
Bibliografia Obras de Charles Rojzman : Freud, un humanisme de l’avenir, Desclée de Brouwer 1998 Avec Véronique le Goaziou, Comment ne pas devenir électeur du Front national, Desclée de Brouwer 1998 ; les Banlieues, le Cavalier bleu, coll. Idées reçues 2001 La peur la haine et la démocratie, Desclée de Brouwer 1999 Avec Sophie Pillods, Savoir Vivre ensemble, agir autrement face à la violence et au racisme, Syros 1998 La violence politique, ouvrage collectif dirigé par Max Pages Erès 2003 Avec Théa Rojzman, C’est pas moi, c’est lui. Ne plus être victime des autres, Jean-Claude Lattès, 2006 ; La Réconciliation, roman graphique, Jean-Claude Lattès 2007 Sortir de la violence par le conflit, La Découverte, 2008 Bien vivre avec les autres, une nouvelle approche : la thérapie sociale, Larousse, l’univers psychologique 2009 Castoriadis C., Une société à la dérive, Le Seuil 2005 Freud S., Psychologie des foules et analyse du mal, Petite bibliothèque Payot 1989 Le malaise dans la culture, PUF 2004 Fromm E., La passion de détruire, anatomie de la destructivité humaine, Robert Laffont 1973 Le cœur de l’homme, Petite bibliothèque Payot 1979 Jung C. G., La guérison psychologique, Georg 1953 Klein M., l’Amour et la Haine, Payot 1972 Laborit H., La Nouvelle grille, Robert Laffont 1974 Lewin K., Resolving Social Conflicts, Harper&Row 1948 Mendel G., La Révolte contre le père, Petite bibliothèque Payot 1990 Une Histoire de l’autorité, la Découverte, 2002 Pourquoi la démocratie est en panne, la Découverte 2003 Mitcherlich A et M, Le Deuil impossible : les fondements du comportement collectif, Payot 1972 Roger C., Le Développement de la personne, Dunod 1967 A contribuição da terapia social para a sociedade actual
A necessidade de viver e trabalharmos juntos A TS tenta aproximar-se o mais possível da realidade, distanciando-se dos preconceitos, das propagandas, dos movimentos colectivos de tipo emocional, lutando contra todas as tentações totalitárias ligadas à nossa capacidade de idealização e de demonização. A TS é uma maneira de recriar um elo entre grupos que já não podem encontrar-se e que até se odeiam por vezes. A TS é um itinerário espiritual com todas as suas vantagens e inconvenientes. Partir à descoberta de si mesmo não fácil, mas permite avançar embora o sofrimento seja inevitável. O objectivo final é permitir a emergência de uma inteligência colectiva a partir do grupo. Nota: Este texto inspira-se largamente do último livro de Charles Rojzman “Bien vivre avec les autres”, ed. Larousse (ref. no fim). As frases do autor foram raramente alteradas. O objectivo deste trabalho é transmitir uma informação sobre a pertinência da Terapia Social para a sociedade actual. Gênese da terapia social Charles Rojzman sociólogo e psicoterapeuta, intervém há mais de vinte anos junto de grupos ou de indivíduos em conflito tanto na França como no estrangeiro. A sua prática permitiu-lhe elaborar um método de intervenção original, a Terapia Social. O seu método tem algo que ver com a história pessoal de seu criador, C. Rojzman. Nascido de uma família judia, emigrou da Polónia em 1942. Os seus 4 irmãos e avós desapareceram durante a guerra. Nós somos, de facto, determinados em grande parte por aquilo que fazemos. É o que as pessoas procuram compreender quando entram no processo da TS:
Referências intelectuais Limitamo-nos a mencionar os autores que tiveram uma influência significativa sobre a criação da TS. Para obter mais detalhes, consultar o livro “Bien vivre avec les autres”, p. 23-33. • Sigmund Freud (C. Rojzman escreveu um livro sobre Freud, "Freud un humanisme de l’avenir” • Eric Fromm • Cornelius Castoriadis • Melanie Klein • Henri Laborit • Gerard Mendel • Kurt Lewin Desde há muitos anos que a TS progride como disciplina autónoma, mas a montante deste processo encontram-se as bases oriundas da Psicologia Social, cujos fundadores foram Jacob Moreno (1889 - 1974) Elton Mayo (1880 - 1949) e Kurt Lewin (1890 - 1947). A Psicosociologia pressupõe que nenhuma crise social pode ser resolvida sem ter em conta o conflito entre as lógicas institucionais – visando a eficiência – e o desejo de autonomia do individuo contrariando essas lógicas. Os factos sociais não podem ser analisados estaticamente. Eles são percorridos pelo ser humano e, portanto, sujeitos aos movimentos de sua Psiquê. É impossível conceber o indivíduo social fora do seu contexto ou fora das instituições enquanto organização colectiva sem em considerar a dimensão psicológica dos seus membros. A crise social é, então, simultaneamente, uma crise institucional e uma crise de indivíduos. A Psicopatologia torna-nos conscientes de que os seres humanos, além dos sofrimentos pessoais, podem igualmente padecer de vários distúrbios psíquicos quando formam um grupo, distúrbios nomeados genèricamenete "angústia coletiva”. A contribuição da terapia social na sociedade actual, em agosto de 2009 Quando o grupo está em crise, instalado num processo regressivo, o equilíbrio psíquico comum vai estabelecer-se no ponto mais baixo da psiquê individual e as reacções mais instintivas vão emergir, tais como os instintos de conservação, de agressividade e de gregaridade. Os grupos, incluindo os mais evoluidos, podem tornar-se crédulos, impressionáveis e belicósos, bastante receptivos aos boatos, à propaganda ou às idéias feitas, que serão consideradas como incentivos ao ódio alimentando medos e preconceitos simplistas. As ideias mais inícuas podem até influenciar fortemente grupos constituídos de pessoas supostamente livres, tolerantes e pacifistas. O abandono da capacidade de julgamento e de espírito crítico pode ser total. É por isso que a TS, que tem como objectivo o tratamento social dos problemas, optará pela terapia do grupo. Interessa-lhe sobretudo identificar o grupo (instituição, bairro, bando, corporação) a que pertencem aos indivíduos considerados como violentos ou autores de acrtos descriminatórios. Aperceber-se-á então que é o próprio grupo que está em crise e na orígem dos conflitos colectivos. O pressuposto conceitual subjacente à primeira etapa da TS, é que o racismo e de maneira geral o ódio do outro, é um sofrimento para quem é o autor. Primeiras descobertas • Os ódios escondem ou traduzem receios. Cada vez que uma pessoa sente ódio A partir daí é importante que se compreenda na atitude ou no comportamento de quem é considerado ou que se considera a si próprio vítima de racismo ou de desprezo, a maneira como ele nutre a descriminação e o ódio de que é objecto através das suas atitudes e acções Que trata a Terapia Social? A TS cuida das doenças sociais que nos atingem colectivamente: • Crise de sentido Elas representam as várias facetas desta situação geradora de medo e de violência. As doenças colectivas da nossa época, segundo a TS, são: • A depressão Estas doenças sociais existem em toda parte: nas famílias, empresas, instituições, bairros e zonas de conflito. A depressão Em todos os grupos afectados por essas terapias da relação e da "convivência", há pessoas que não têm confiança nelas próprias, não têm projectos para o seu futuro e vivem, por vezes, diversas formas de ódio e de desprezo de si mesmos. Não pensam que estão deprimidas, dado que conseguem viver e trabalhar normalmente mas, de facto, as suas vidas perderam "substância" deixando de acreditar nelas. Sociopatia Trata-se de indiferença para com os outros e as suas necessidades. “Cada um por si” o que leva à delinquência, à corrupção, a negociatas, a páraquedas dourados... É óbvio que o egoísmo social encontra-se em todas as componentes da sociedade marcada por uma lógica de rentabilidade e por uma concorrência feroz. O medo do empobrecimento e do declínio social e até mesmo o receio de possuir menos, são os ingredientes desta doença. Vitimização Trata-se do sentimento de que se é vítima dos outros que estaríam, supostamente, por trás de todos os nossos males. O medo e o sentimento de ser vítima engendra muitas vezes o ódio e a violência. A TS trabalha a partir destas realidades emocionais ajudando, numa primeira etapa, indivíduos e grupos sociais a organizarem-se com o objectivo de produzirem uma mudança colectiva no interior de seu meio profissional e realizando-se simultâneamente a nível pessoal. Para criar as condições de uma convivência equilibrada, objectivo da TS, um trabalho exigente tem de ser feito a fim de permitir que as pessoas tomem consciência da existência dessas emoções, assim como proporcionar-lhes a sua tranformação da maneira mais construtiva possível. O essencial é encontrar uma capacidade de acção conjunta Trabalhar sobre o medo, a violência e o sentimento de impotência, para finalmente travar o ciclo infernal resultante dessas emoções, é um pré-requisito para qualquer projecto colectivo. O medo, entre realidade e fantasmas A palavra "medo" faz medo. É difícil reconhecer esse sentimento em si mesmo. A TS cuida dos medos que impedem as pessoas de terem relações harmoniosas umas com as outras pois o medo produz fenómenos de proteção que podem erigir obstáculos impedindo uma relação autêntica com os outros. Tais fenómenos tanto podem engendrar a violência como também uma atitude de recuo ou, mais simplesmente, uma timidez mórbida, uma falta de confiança ou ainda levar à manipulação dos outros. Todos estes sistemas de protecção impedem um relacionamento saudável com os outros, resultando daí um amplo sentimento de impotência e muitas violências contra si próprio e contra os outros. Os medos podem ocasionar estados depressivos, insucessos escolares e profissionais. Isso produz reacções violentas contra as instituições e contra a autoridade. Em TS, é preciso agir a dois níveis: compreender os nossos medos, mas também encontrar formas de satisfazer minimamente as nossas necessidades básicas Usar uma máscara para esconder o seu medo O medo cria sofrimento, mas também violências e mal-entendidos nas relações humanas. Isso acontece quando tentamos esconder esse medo. A principal técnica para ocultar o medo é usarmos uma máscara e desempenharmos um papel, não revelando assim quem somos realmente. A segunda técnica consiste em nos reagruparmos entre pessoas "simpáticas", em clãs com as mesmas afinidades. As máscaras são uma defesa, mas em contrapartida criam violência ou hostilidade. Se uma pessoa vai exagerar o seu valor e utilidade social, outra vai desvalorizar-se excessivamente enquanto outra vai refugiar-se no silêncio ou numa idiotice fingida. Outra ainda mostrará o seu desprezo quer opondo-se sistematicamente, quer submetendo-se à autoridade. Neste último caso, a pessoa vai colocar-se numa posição de vítima, acusando o mundo inteiro de a perseguir. Desempenhar um papel na sociedade, ocultar as suas emoções e medos, tais são igualmente os meios de protecção de que necessitamos. Mas será que medimos as consequências? Num grupo de TS ninguém pede aos participantes que falem dos seus medos, que os compreendam e os ultrapassem. Mas eles apercebem-se pouco a pouco até que ponto estes mecanismos em vez de os protegerem, os bloqueiam, obrigando-os a violentarem-se a si-próprios, provocando em contrapartida a violência que se pretendia evitar inicialmente. Cada participante tomará progressivamente consciência da influência dos seus medos na sua própria vida: - recursos pessoais e potencialidades desperdiçadas (auto desvalorização e sabotagem das qualidades pessoais) - tendência a enclausurar-se numa visão catastrófica da vida ou demasiado cínica da realidade (incapacidade de agir) - violência contra si-próprio (desapreço, ódio de si-mesmo, autodestruição) - e, finalmente, um terrível sentimento de impotência, gerador de violências. Como consequências a nível social: • deterioração das relações de trabalho • Deterioração no trabalho • Comportamentos insolentes ou apáticos na escola • formas de egoísmo social (sociopatia) • Dificuldades de cooperação com outros modos, preferindo modos de relacionamento negativos (submissão, revolta, isolamento, constituição de clãs ...) Os medos ocultam as necessidades Os medos estão sempre associados a necessidades não satisfeitas que são na realidade fundamentais para os seres humanos: • necessidade de amar e ser amado • de segurança • de dar sentido à vida • de densidade A sua ausência provoca mecanismos de defesa: • a falta de amor leva à possessividade, ao desejo de sempre agradar. O receio de ser rejeitado induz uma atitude agressiva, excessivamente afectuosa ou hostil a qualquer relação, a fim de reforçar o sentimento de rejeição. • a falta de segurança gera o medo de ser agredido e procura controlar tudo. • a falta de significado leva à busca de verdades absolutas, ao receio em face do desconhecido, às ideologias sectárias ou fanáticas. • a falta de dinheiro produz o pânico de carecer do essencial, o medo de perder o emprego, a obsessão de entesourar, o desejo de enriquecer sem atingir satisfação. Destes receios resultam violências a diferentes níveis: • o medo de ser rejeitado provoca a agressividade e o sentimento de ser vítima: ninguém me ama, sinto-me excluído, pensamentos paranóicos (excluem-me voluntariamente, estão todos contra mim...), levando à rejeição violenta dos outros. • o medo de ser agredido leva a um posicionamento defensivo e agressivo (querem-me mal). • o medo do desconhecido provoca o isolamento violento e um niilismo depressivo (nada tem sentido, não acredito em mais nada, já não desejo viver) ou a ideologias fanáticas (o mundo deve abraçar a minha verdade). • o medo da decadência social faz que se deseje enriquecer a todo o custo, tornando-se delinquente ou caindo num egoísmo social sem limites. Estes sentimentos são amplamente compartilhados porque as necessidades básicas de cada um são raramente satisfeitas ao mesmo tempo. Algumas pessoas acumularão as carências e serão por conseguinte mais afectadas do que outras. Os indivíduos não são iguais quanto à satisfação das suas necessidades. Mas à partida todos se assemelham e funcionam do mesmo modo. A violência social, um problema ou uma solução? O trabalho da TS não consiste em levar os grupos à não-violência, mas sim conduzi-los a um conflito construtivo resultando numa dinâmica de cooperação. Em última análise, a violência diminui, mas os problemas não se resolvem. Na realidade, a violência não é o problema, mas sim a solução. É só a partir da sua manifestação que nós começamos a preocupar-nos das dificuldades reais. A violência é um revelador. Na família, no trabalho, na rua, a violência (visível) permite identificar os males menos "visíveis" e mais preocupantes. No entanto, esta violência "visível" não deve ser banalizada, pois torna-se extremamente difícil de resolver uma situação e encontrar formas de cooperar quando um determinado limiar de violência foi atingido. A TS intervém para identificar o que pode ter causado o crescimento da violência. O grupo que irá viver o processo de TS terá como trabalho nomear aquilo que produziu a violência entre as pessoas presentes e experimentará, no final do processo, uma mudança positiva, através de propostas concretas e estabelecendo um diagnóstico adequado. A violência em todas as suas formas A violência deve ser diferenciada da cólera e do conflito. Se estou zangado, não sou necessariamente violento. Se estou em conflito com alguém, não sou necessariamente violento. • formas extremas de violência: guerras, assassinatos, estupros, mas também o desprezo, a desvalorização e a vontade de destruir o outro. • a violência física é a mais fácil de detectar, mas há outras formas mais insidiosas, A violência está sempre ligada à representação do outro ou dos outros. Trata-se de desconsiderar, de negar, de negligenciar ou destruir as pessoas pelas quais é impossível sentir qualquer empatia. Todos somos capazes disso. É quando me recuso em considerar o outro como um irmão em humanidade que posso exercer sobre ele a minha violência. Todos somos potencialmente violentos. Amor e ódio são, segundo Freud, as duas faces da mesma medalha. Cada um de nós, envolvido numa situação ou numa acumulação de sofrimentos silenciados, é capaz do pior. Compreender esta processo, ser capaz de recuar, é a única maneira de acalmar a onda de violência antes desta atingir o clímax. A violência como solução Isto pode chocar-nos, mas a violência não é um problema, é uma solução. A violência ocorre quando uma pessoa ou um grupo não encontrou solução para os seus problemas. Quando alguém sofre necessita para sair desse estado, mas ele muitas vezes sente-se incapaz de mudar seja o que for. A violência é uma forma de responder à sua impotência. Afirmar que a violência não é um problema, mas uma solução, é uma maneira de dizer que ela permite sair da impotência, de não mais ser vítima nem ser perseguido. A violência permite mostrar a força para melhor ocultar a sua fraqueza. É ainda uma solução contra o isolamento e a solidão experimentadas por muitos: o racismo e a xenofobia permitem recriar, com os membros do grupo de pertença, um elo identitário forte em face de outros grupos que se tornaram inimigos. Todas as violências podem ser consideradas como soluções em resposta a uma carência, a uma necessidade insatisfeita, a um sentimento de impotência ou de perseguição. Daí o interesse considerável em encontrar formas que respondam às necessidades fundamentais dos seres humanos no seio da família, das instituições ou duma sociedade que busca a paz e equilíbrio. Tal é o objectivo do TS: em vez de erradicar a violência, considerada como uma solução "regressiva", é a partir daquilo que ela exprime profundamente que se poderão encontrar soluções construtivas, colectivamente. A violência, a expressão de um sofrimento Ao trabalharmos sobre a violência sofrida ou exercida descobrimos sempre um intenso sofrimento. Todos nós somos capazes de violência, porque todos somos potencialmente sofredores. Mas quanto mais um indivíduo sofre mais ele é susceptível de ser violento, inclusive em relação a ele próprio. Porém, dentro de um grupo, não se trata de revelar sofrimentos a fim de nos apiedarmos dos infortúnios de cada participante. Trata-se sim de ver, ouvir e aceitar aquilo que é doloroso - em si e nos outros – e que permite progredir. Na vida social, estamos habituados a fazermos de maneira a que os sofrimentos não venham à superfície; calamo-los a fim de trabalhar, amar, viver com os outros. Isto leva-nos a mentir uns aos outros, impedindo-nos de resolver os problemas em profundidade… Pois, ao dissimularmos o nosso sofrimento, escamoteamos igualmente a violência que simultaneamente dele resulta. Acalmar a violência implica assim que o sofrimento seja identificado, dito, escutado. Em TS preocupamo-nos sobretudo com o sofrimento que resulta do contexto social das pessoas. Com efeito o sofrimento pessoal (feridas da infância e da vida) não é estranho ao contexto social de uma pessoa (escola, família, casal, trabalho). Mas a especificidade de uma TS consiste em analisar conjuntamente a maneira de transformar o contexto para que este evolua no sentido de um restabelecimento em vez de aumentar os sofrimentos. Se a escola assim como a instituição na qual posteriormente a pessoa trabalhará tiverem uma função reabilitadora, então elas poderão curar ou aliviar os seus sofrimentos. Mas se, ao contrário, os contextos forem patogénicos, isto é, geradores de violência, de solidão, de competição, de incapacidade em realizar projectos comuns, o indivíduo vai sofrer cada vez mais tornando-se violento por reacção a fim de compensar a sua impotência e sofrimento. Nem a escola nem o mundo do trabalho são actualmente reabilitadores. O sentimento de impotência A incapacidade de assumir o controlo da sua própria vida ocasiona um verdadeiro sofrimento. Se eu me sentir impotente acabo por sê-lo de facto, o que elimina qualquer perspectiva de resolução do sofrimento. Mas se, pelo contrário, eu vislumbrar perspectivas de mudança, nesse caso elas tornam-se viáveis. A TS preocupa-se essencialmente com a supressão deste bloqueamento inibidor cujas consequências são bastante nefastas no seio de uma comunidade. O sentimento de impotência está na génese dos nossos medos colectivos (medo do futuro, do insucesso…) e de certas expressões da violência (diabolização dos outros, soluções regressivas…) assim como de todas as formas de auto-depreciação. Esse sentimento está igualmente na origem de um desaproveitamento considerável das boas intenções colectivas. Isso dificulta qualquer possibilidade de cooperação, sugerindo que não serve de nada mobilizarmo-nos para a mudança. Que se pense na impotência dos pobres, dos empregados, dos subordinados, da geralmente ignorada situação dos que estão " no topo ", menos admitida e reivindicada. Isto reforça as relações de subordinação de uns em relação aos outros e impede que se encontrem soluções colectivamente. Quantas vezes os decisores agem sem qualquer concertação, sem se apoiarem na riqueza informações oriundas de quem ocupa o terreno. Em resumo: O sentimento de impotência exprime-se raramente no topo da hierarquia; no meio ele existe, mas é pouco assumido pessoalmente; na base é excessivo, exprimindo-se frequentemente através do desespero e da violência. Deste modo todos os níveis da sociedade vão imaginar, para não dizer “ fantasmar ”, as posições de uns em relação aos outros reforçando as suas convicções iniciais. A ausência de cooperação e a solidão As crises que atravessa a nossa sociedade e o sentimento de impotência estão interligados. A falta de cooperação e a solidão são preocupantes, as motivações individuais dominam o sentido colectivo, isto é, o sentimento de fraternidade e de solidariedade dissipa-se. O enclausuramento (entre comunidades, culturas, gerações, categorias socioprofissionais...) reforçou o sentimento de impotência e a ideia de que fora do seu grupo só há inimigos, os que não tem razão e especialmente que nos impedem de agir. Para superar este impasse, é preciso recrear laços e retomar confiança no poder da ação colectiva. Deve-se também redescobrir o sentido do projecto comum. Não é só entender que juntos somos mais fortes, mas que juntos, vindos de Em todas as profissões existem "códigos" que levam a pensamentos como "temos de fazer”, como "a nossa missão é"... A uniformidade de comportamento ao ser reivindicada sugere uma unidade e solidariedade totalmente falsas que produzem ainda mais impotência. É o funcionamento do clã: ou nos submetemos ou somos é excluídos. A posição de vítima Considerar-se a si mesmo como uma vítima leva a atitudes como "eu não posso fazer nada... São os outros que podem”. E se eu não posso nada, é porque os outros me impedem de fazer. Temos sempre muita dificuldade em aceitar que as crises que atravessamos são globais e profundas, que elas não resultam de grupos específicos nem são a expressão de uma fatalidade contra a qual seríamos incapazes de agir. Aceitar essa ideia seria reconhecer a responsabilidade de cada um. Ora não é isso o que de algum modo rejeitamos? Por todo o lado a responsabilidade é rejeitada sobre os outros. Podemos também transformar o nosso próximo em vítima, o que leva aos mesmos impasses. "Se os jovens são violentos é porque são vítimas de discriminações”, “se os pobres são pobres é porque são vítimas do capitalismo internacional...”, “se os alunos chumbam é porque são vítimas de condições sociais desfavoráveis…” Reforçar a impotência dos outros é uma maneira de confessar a sua própria incapacidade. Agir sobre esta, é ajudar as pessoas a recuperarem o controlo das suas vidas tronando-se a mudança possível. A nível psicológico e pessoal, a TS vai favorecer a confiança em si próprio, a responsabilidade e a satisfação das necessidades básicas, assim como a cooperação concreta e o conflito construtivo tanto social como colectivamente. Isso permitirá apaziguar os receios, transformar a violência em conflito e reduzir o sentimento de impotência dando lugar a uma capacidade de acção colectiva. Os objectivos da terapia social A TS visa um ideal de sociedade democrática, que defende a dimensão colectiva contra o fechar-se sobre si-mesmo, tendo sempre em vista uma melhoria da vida colectiva. Mas esta melhoria só pode resultar se os indivíduos adquirirem uma maior autonomia e um verdadeiro sentido da responsabilidade, se descobrirem o desejo de se comprometerem e libertarem do sentimento de impotência, se saírem da sua solidão ou fechamento comunitário a fim de se abrirem a uma maior solidariedade e se, finalmente, conseguirem transformar a violência em conflito. O conflito permitirá a troca de ideias e o debate, essenciais numa democracia forte. Tratar os medos Aprender a distinguir entre medos justificados (perigos reais) e medos irracionais (fruto da Imaginação, fantasmas, preconceitos ou atitudes paranóicas). Aprender a melhor conhecer a vida para viver melhor. Para "curar" é essencial que seja restabelecido o contacto com a realidade tal qual ela é e não tal como a imaginamos. Não se trata de domesticar os medos mas sim, progressivamente, poder distinguir entre os que são reais e os que são causados por feridas pessoais sem relação com a realidade presente. Aprender a reconhecer a origem dos medos pessoais e colectivos, compreender os desejos e necessidades que se escondem por detrás deles, é a primeira etapa da terapia que consiste em permitir que os medos se exprimam, dado que a experiência nos mostra que eles se atenuam quando são verbalizados e reconhecidos como tais. O objectivo de um trabalho em grupo é assim ultrapassá-los, construindo colectivamente. É importante que se trabalhe simultaneamente sobre o “passado” e o presente” das pessoas, assim como sobre as condições de uma mudança reabilitadora. Isso constitui o trabalho terapêutico individual, com a ressalva de que isso não é ajudar as pessoas de forma isolada mas sim permitir que um grupo desenvolva uma estratégia comum para operar essa mudança. E posto que as pessoas têm as mesmas necessidades e sofrem das mesmas lacunas, o objectivo social e comum irá no sentido de uma reabilitação individual. Reconhecer os medos Os medos reconhecidos e formulados em grupo perdem o seu poder destrutivo. Por princípio, a TS é muito precauciosa em relação a qualquer forma de manipulação ou de dirigismo. Cada um expressa o que deseja ao seu próprio ritmo. Não procuramos extrair confissões, mas sim promover um ambiente seguro que permita e estimule a expressão individual, favorecendo uma comunicação eficiente, capaz de resolver os conflitos latentes ou abertos no interior de um grupo. Deixar de julgar os outros trabalhando em comum Quando o terapeuta cria um ambiente seguro e igualitário ele faz desabrochar em cada participante o seu potencial de sociabilidade. O clima geral irá gradual e inevitavelmente apaziguar o medo natural de ser rejeitado ou de não ser apreciado no interior do grupo, o que diminuirá os comportamentos violentos. O estatuto de uns e dos outros desparece assim progressivamente, exprimindo-se cada um em seu próprio nome, evocando dificuldades particulares e não através de generalidades. As pessoas aprendem umas com as outras inclusive através da crítica mútua. Mas ao criticarem-se fazem-no na base de factos reais e não a partir de um “discurso”. Cada um deixa de odiar o outro por aquilo que ele representa passando a prestar atenção àquilo que ele é, pensa e diz verdadeiramente. É o início de uma resolução não violenta do conflito. Definição de um quadro estrito e protector 4 regras básicas: • A liberdade de participação • Proibição de exercer violência física ou de um qualquer comportamento repreensível aos olhos da lei • Confidencialidade: proibição de divulgar no exterior o que se diz no interior do grupo • Presença obrigatória Estas regras dão segurança aos participantes. Com efeito, participar num grupo de TS é emocionalmente desgastante. Não se trata nem de uma “batalha campal” aonde cada um vai diz brutalmente o que o faz sofrer, nem de uma terapia de grupo aonde os participantes vêem sarar as feridas da infância. Os participantes devem sentir e saber que não se encontram numa arena aonde tudo é possível. Desde o início o quadro protege-os: • A palavra é protegida pela regra de confidencialidade • As pessoas são protegidas pelas regras legais que proíbem a violência física e atitudes repreensíveis • Dá sentido ao trabalho comum (visto que a presença dos participantes é obrigatória) • Cada um progride ao seu próprio ritmo e sem pressão exterior (participação livre) Deste modo, um clima de confiança desponta gradualmente. Algumas pessoas resistirão e levarão mais tempo a serenar, a ter confiança no grupo. Deve-se estar atento a esta realidade que implica a necessidade de dar tempo ao tempo. A TS pode ser praticada em duas horas como em dois anos, mas é óbvio que quanto mais a intervenção for longa mais as pessoas serão capazes de superar esses primeiros "estados" naturais de apreensão em relação aos outros. Surgimento da cooperação Sem uma verdadeira aprendizagem da cooperação, as pessoas dissimulam-se frequentemente por detrás da sua função, defendem a imagem do seu bairro ou da sua instituição, protegem ciosamente os seus segredos e revelam dificilmente as suas falhas. Trata-se de uma “falsa” colaboração que permite de facto aprender a conhecer-se um pouco, vislumbrar soluções, mas que ao evitar de falar dos verdadeiros problemas impede de sair de um sentimento de impotência. Existe ainda uma outra forma de cooperação que é uma “a cooperação patológica”: ela consiste em se reagrupar entre membros de uma mesma comunidade contra as outras comunidades. Este tipo de cooperação é perigosa porque, reunindo os membros do mesmo clã, orienta a solução dos problemas para um ou outra forma de maniqueísmo: "Nós e os outros”. Nós representamos o que é certo, o que é bom, o que é verdadeiro enquanto os outros representam o que está errado, mau e injusto. A cooperação em TS apoia-se sobre as falhas e limitações de cada indivíduo, grupo ou instituição. Cada um mostra-se tal qual é e ousa falar dos seus erros, das suas dificuldades, sem recear o julgamento e a rejeição por parte do grupo. A TS permite sair de uma vitimização impotente, conectar-se à realidade e desenvolver colectivamente estratégias para mudanças significativas. É a capacidade do grupo em definir metas realistas e realizáveis, definir prazos e avançar por etapas, que está em jogo. Em seguida a cooperação entre as pessoas é essencial e tem um papel terapêutico. Trabalhar de forma inteligente e em confiança dá força e energia ao grupo e é assim que surgem perspectivas de mudança. É claro que nada está ganho à partida, mas também nada está perdido. Permitir a circulação das informações Um factor importante é o conhecimento dos outros. A partir do momento em que os conheço passo a ter menos medo. O mesmo acontece com a realidade do “sistema" pois desde que a sua mecânica é conhecida deixo de o recear e de me contentar em o diabolizar. A circulação das informações é uma fase essencial em TS, que se torna possível quando os medos se atenuam e a confiança se instala. A circulação da informação conclui o trabalho sobre os medos porque ajuda a dissipar os mal-entendidos entre as pessoas: todos vão trabalhar a partir da "realidade". No termo de uma actividade de TS, os participantes terão feito a experiencia de uma construção colectiva pacífica. A TS, tendo por objectivo acompanhar as pessoas na aceitação das suas responsabilidades, permite igualmente que as emoções, os medos, os ódios, venham ao de cima para esclarecerem certos comportamentos de outro modo incompreensíveis. A autenticidade das informações que circulam permite sair das incompreensões mútuas, dos mal-entendidos e, sobretudo, de proporcionar uma visão mais precisa e complexa da realidade. Criação de inteligência colectiva Trata-se agora de levar o grupo acompanhado em TS a uma melhor compreensão dos diferentes pontos de vista dos participantes. Eles questionar-se-ão sobre as suas convicções e preconceitos, descobrindo que não são unicamente vitimas mas que eles, assim como a instituição, têm a sua parte de responsabilidade naquilo que acontece. Deste modo, a inteligência colectiva permite encontrar em conjunto soluções adaptadas. O objectivo do TS será fomentar essa inteligência colectiva, fruto de um fluxo de informação. A compreensão de um problema global é impossível enquanto não for ultrapassada a visão interna do grupo. Esta visão parcial alimenta inevitavelmente fantasmas e preconceitos sobre o desconhecido e bloqueará a compreensão da situação. A circulação das informações permitirá a compreensão da sua complexidade. Como a TS é um trabalho em grupo, a compreensão individual duma dada situação será confrontada à visão de outros participantes. Todas estas “inteligências" vão juntar-se e enriquecerem-se mutuamente. A inteligência colectiva é por conseguinte a visão de uma realidade complexa compartilhada por pessoas comuns. Temos dificuldade em aceitar que as pessoas afectadas por um problema ou situação são mais aptas em tomar decisões por si mesmas porque desde há muito estamos convencidos de que só os peritos sabem e podem decidir por nós. Esta inteligência colectiva e este conhecimento das situações são-nos à partida inacessíveis. Só vemos máscaras: a do polícia boçal, a do jovem delinquente dos bairros suburbanos, a do professor "sabichão”, a do político... Os objectivos específicos da TS é desenvolver a confiança pessoal e a responsabilidade, permitindo o surgimento do conflito, e todos esses elementos vão criar uma inteligência coletiva. A verdadeira inteligência coletiva só pode existir se as pessoas se libertarem dos seus medos e retomarem confiança neles. O facto de ser valorizado individualmente impede que se busque a sua identidade unicamente através da participação num grupo ou clã, o que resulta geralmente numa visão maniqueísta do mundo, fonte de violência. A ausência de inteligência colectiva e de circulação da informação leva cada grupo a contentar-se com uma compreensão limitada e simplista da realidade. A tentação será grande, nesse caso, de procurar bodes expiatórios e adoptar comportamentos paranóicos. A inteligência colectiva permite evitar que se atribua a causa dos problemas em um único protagonista. Precisamos sempre de inteligência colectiva para encontrar soluções adaptadas a uma comunidade de indivíduos. Estabelecer uma "fraternidade" conflitual Digamos sem angelismo que a fraternidade trata, em grande parte, os medos. Uma pessoa que teme não tem qualquer hipótese de lutar contra os seus medos. Escondidos bem no interior, não declarados, os medos roem a pessoa por dentro sem nunca manifestarem o seu rosto. Mas sua verdadeira face é muitas vezes menos preocupante do que o sentimento que nos deixa. Quando o grupo consegue nomear os medos, estes tornam-se significativos e a pessoa sente-se menos ameaçada e manipulada. A força desses grupos reside no aparecimento gradual de uma fraternidade conflitual. A fraternidade ocorre quando as pessoas se reconhecem nos outros. Normalmente sentimo-nos mais próximos das pessoas que se nos assemelham, mas o sentimento de fraternidade é ainda maior quando nos aproximamos de pessoas bastante diferentes de nós. Nós chamamos fraternidade conflitual a familiaridade ou empatia “progressiva” de uns em relação aos outros que não vai desembocar numa pacificação absoluta dos relacionamentos, mas sim torná-los possíveis. Se as pessoas estavam inicialmente em conflito podem, no final do trabalho de grupo, continuar a opor-se no que diz respeito às suas ideias e pontos de vista. O conflito é normal, devendo tornar-se simplesmente construtivo a fim de conservar a sua fecundidade perdendo a sua violência. Não há contradição entre o sentimento de fraternidade e de conflito. Fazer surgir o conflito A TS opera uma diferença entre violência e conflito. O medo do conflito, que impede uma confrontação autêntica, é de facto o medo da violência. O conflito faz parte da vida e é mesmo a principal característica da democracia. Viver em uma democracia significa estar sempre em desacordo, em debate, em contradição, no pluralismo das ideias. A violência é de certo modo o oposto do conflito, dado que em situação de violência contentamo-nos em evitar os outros ou de os agredir, sem que haja uma verdadeira confrontação de pontos de vista. Ela surge frequentemente quando não há espaço, tempo ou lugar para o conflito. A violência é inerente a uma representação dos outros muito fantasmada, por vezes diabolizada e algumas vezes desvalorizada. Em TS partimos de situações de violência para destrinçar entre fantasma e realidade de maneira a fazer surgir os verdadeiros conflitos e permitir que se exprimam, mesmo de maneira agressiva e erradamente considerada como violenta. O objectivo não é acalmar a violência mas extraí-la do seu manto de ódio e de desprezo deixando para que surja da confrontação uma centelha de inteligência colectiva. Ao exercermos violência sobre alguém, queremos negar-lhe a sua realidade. Em contrapartida o conflito, não significa a sua negação. Os outros existem realmente com as suas opiniões, interesses opostos, mas o debate é possível. O adversário é considerado como uma pessoa. A única maneira de transformar a violência em conflito é mostrar ao grupo o benefício das divergências existentes para resolver a situação. Cada ponto de vista contém um pedaço da realidade. Evitar os conflitos é a melhor maneira de permitir o ressurgimento da violência. Quando se impede as pessoas de falarem dando-lhes a entender que não é "bonito" dizerem o que pensam, especialmente quando são feitas afirmações demasiado categóricas, é mais do que certo que a pessoa silenciada não irá até ao fundo do seu pensamento. Ela não terá mais vontade de se implicar no trabalho comum e minará, através do seu silêncio, enervamento contido ou desinteresse, qualquer forma de cooperação que tente ser implementada. Ela exercerá uma violência invisível contra o resto do grupo e suscitará em contrapartida uma violência igualmente invisível por parte dos outros participantes. Os benefícios do conflito Contra todas as expectativas é muito mais fácil trabalhar com grupos de inimigos, em conflito aberto, do que com um grupo de profissionais pacifistas, humanistas, afirmando o seu desejo de construir uma "cultura da paz". Não é erradicando a violência que se resolvem os problemas. A violência acaba por desparecer quando se dá a oportunidade às pessoas de deixarem vir ao de cima os seus ressentimentos e dificuldades relacionais. Mas só na medida em que se aceitar ouvir, numa primeira fase, aquilo que a violência exprime. Considerar a violência como um sintoma Como sintoma, a violência interessa a TS que irá tentar compreender a sua origem. As violências visíveis, enquanto sintoma do mal-estar existente no corpo social, podem ser uma "oportunidade" para a comunidade, desde que saibamos aproveitá-las em vez de diagnosticar rapidamente a gangrena contentando-nos em amputar o membro doente sem tratar o corpo como um todo. A principal ferramenta da TS é a palavra, mas uma palavra “livre”, que não teme o julgamento do grupo nem do terapeuta. O clima predominante é de escuta. Não uma escuta "simpática", complacente, mas uma escuta que tenta evitar seleccionar, filtrar e julgar as palavras expressas. Trata-se em seguida de uma escuta terapêutica, no sentido em que esta rediz, reformula, ajudando a palavra a ir até ao fim, ultrapassando um primeiro nível de expressão para que a palavra se torne mais clara e, de certo modo, mais verdadeira. Conferir o poder de agir sobre o mundo É necessário que as pessoas passem do estatuto de vítimas ao de responsáveis e que o seu sentimento de impotência se transforme em sentimento de poder. Não só a aceitação de uma responsabilidade comum em qualquer situação difícil, acalma a violência, mas ela a transforma igualmente em capacidade de agir. O poder de agir só pode vir de nosso senso de responsabilidade pessoal. Um dos principais objectivos da TS é aprender a reassumir o sentido da responsabilidade e aceitar a capacidade de dano que existe em si. Temos de aprender a reconhecer a violência que nos habita. Sair da incapacidade de agir O maior problema de uma sociedade em crise não é a violência, mas sim o sentimento de impotência que vem sempre de algum lado. A nossa sociedade sofreu de várias crises simultaneamente: • autoridade Cada um de nós suporta essas crises em diferentes graus e face a estes múltiplos desafios, a esta mistura de ansiedade e de medo, o sentimento de impotência vai aumentando. Isso implica, em TS, interessarmo-nos pelas necessidades básicas insatisfeitas das pessoas. Ao sentirem-se reconhecidos, amados, em segurança e, por assim dizer, aspirados em direcção ao sentido, os participantes recuperaram forças e contribuem ao mesmo tempo para a mudança. Saem da incapacidade de agir para de se tornarem agentes de mudança. Do estatuto de vítima ao de responsável A TS aplica-se em fazer que o indivíduo passe de uma posição de vítima à de pessoa responsável da sua impotência, à capacidade de agir. Em TS os objectivos prosseguidos – realistas para que sejam realizáveis - devem ter à partida um projecto comum, como objectivo. A finalidade não é tratar cada individuo, mas sim efectuar colectivamente a transformação. "Entre o entusiasmo e a depressão lúcida" Observa-se inicialmente num grupo que existem dois modos extremos: • a depressão lúcida • o entusiasmo utópico Ora nós temos de encontrar um equilíbrio entre as duas posições "Não é possível fazer nada” e “Tudo se arranjará”… Isso acontece quando reconhecemos as dificuldades e sonhamos simultaneamente com uma "melhoria", avançando para a meta equipados com as condições que favorecem o sucesso e motivados para a mudança. O objectivo não é mudar a sociedade, mas ver claramente e concretamente por que é que é tão difícil evoluir, tanto a nível individual como a nível social. Alterações individuais e transformações institucionais Uma vez mais, a TS não pretende mudar os indivíduos. Ela cria as condições para que surja um desejo de mudança, que é obviamente diferente conforme as pessoas, propondo um contexto reabilitador que supera as resistências pessoais à cooperação, ou seja, viver e trabalhar com os outros. Como diz Freud "Ser capaz de amar e de trabalhar", ou seja, sair do egoísmo ou do ‘fechar-se sobre si mesmo’ para ser capaz de ir ao encontro dos outros trabalhando num projecto comum. • vão da vitimização à responsabilidade Isso sempre no sentido de uma maior cooperação e aceitação do conflito, do qual decorre uma abordagem mais complexa da realidade. A TS não se preocupa em levar as pessoas a mudarem individualmente mas sim, a partir das transformações que ocorrem durante o trabalho de grupo, utilizá-las em vista de mudanças colectivas. O objectivo é político O objectivo é político, no sentido em que se trata de criar espaços mais democráticos que tornem o debate conflitual possível, dando às pessoas o poder de agir sobre o seu contexto ou, de maneira mais vasta, sobre a sociedade. Criar instituições saudáveis, menos patogénicas, criar ambientes colectivos mais favoráveis ao desenvolvimento pessoal, tal é o dever de uma democracia viva. Nesta perspectiva, eminentemente política, a TS é o instrumento que permite a adaptação contínua das instituições pondo-as ao serviço dos cidadãos e criando ambientes sociais saudáveis e reparadores. Prática da terapia social A TS é uma abordagem que permite intervir em situações de crise e de tensão extrema, junto de grupos que trabalham ou vivem juntos, muitas vezes sem o terem escolhido, e incapazes de se entenderem sobre objectivos consensuais. Ela cria o vínculo social e permite sair da violência através da aprendizagem do conflito. Ela oferece a possibilidade de reconstruir um projecto cidadão. O objectivo final é fazer surgir do grupo uma inteligência colectiva, capaz de contrariar a crise, sempre em consonância com o problema que ocupa os participantes. O contexto de terapia social Trabalhamos com todos os intervenientes no sistema, de preferência sem escolher as pessoas mais susceptíveis de aderirem às alterações desejadas. Pelo contrário, tentamos integrar no trabalho de TS todas as pessoas, independentemente das suas opiniões, origem, capacidade de mudança e de cooperação. O terapeuta social está ao serviço do sistema, não intervém para defender um partido contra o outro, não decide quem está certo ou errado. Ela está lá para permitir que todos se tornem responsáveis no confronto com os outros, adquirindo assim uma visão mais inteligentes duma realidade complexa. Dar-se-á a oportunidade às pessoas e grupos que, precisamente, sempre evitaram encontrar-se, de se reunirem e comunicarem. As modalidades postas em prática apenas permitirão encontros improváveis num ambiente que permite aos seres humanos desenvolverem a sua empatia e relação com os outros. Lembrança das 4 regras fundamentais: • liberdade de participação • proibição de exercer violência física ou de um qualquer comportamento repreensível aos olhos da lei • confidencialidade: proibição de divulgar no exterior o que se diz no interior do grupo • presença obrigatória
Antes de ser um “interveniente” ou um ou um facilitador, usando métodos convencionais de animação de grupos, o terapeuta social é sobretudo um “psicoterapeuta". O trabalho sobre si mesmo permite-lhe visitar a sua própria história de vida e conhecer as suas fraquezas. Ele terá de "curar-se" parcialmente, aprendendo os mecanismos terapêuticos através da sua própria experiência, única aprendizagem válida quando se trata de ajudar as pessoas a curarem-se. "Aprendendo a curar-me para ensinar os outros a curarem-se" O “terapeuta ferido " O terapeuta social é um "terapeuta ferido" o que significa que pelas suas feridas e carências é semelhante aos outros, de modo algum um ser superior. Ele não tenta apresentar-se como modelo de referência, nem sequer atingir a perfeição ou adoptar a "boa atitude", mas permanece espontâneo e autêntico, evitando agradar a qualquer custo assim como hostilizar o grupo apontando a fraquezas de cada um. Esta postura tem algo de especial, pois consiste em beneficiar da totalidade da pessoa do terapeuta social, com suas zonas de penumbra e de claridade. Tal postura permite aos participantes, por um lado, experimentarem um contra modelo da autoridade – desta vez falível – e, por outro lado, aprenderem a aceitar-se a si mesmos com os seus pontos fortes e as suas fraquezas. Isto implica uma atitude de "ferido" consciente, habitado pelo desejo de curar. Ao assumir-se como tal o terapeuta preserva toda a sua capacidade de compaixão e de fraternidade. Não é menos doente do que outros, mas sabe que está doente e que tem aprendido a controlar a sua doença. Esta postura permite que o paciente proceda do mesmo modo, tornando-se consciente das suas feridas e procurando o remédio nele próprio: tornar-se, em suma, o seu próprio médico interior. Para lá chegar, o terapeuta deve adquirir uma autoconfiança suficiente e observar correctamente as suas feridas, fraquezas e limitações. Não procurará ou fingirá ser perfeito, nem alimentará essa ilusão para si próprio ou para pessoas das quais será responsável. Só de este modo poderá ajudá-las a avançar em direcção à sua aceitação e à auto-estima, conduzindo o grupo no seu conjunto para a independência e responsabilidade. Trabalhar de maneira "autêntica" sem esconder as suas fraquezas não é fácil, pois estamos socialmente acostumados a fingir a perfeição. Por conseguinte, o terapeuta social deve dar uma imagem honesta de si mesmo, feita de sombras e de luz, não uma imagem fabricada, focalizando-se exclusivamente nos seus pontos fortes. A partida, isso vai provocar reacções negativas assim como gerar um período de deriva e de transferência negativo que o terapeuta viverá dificilmente, tanto mais que as reacções podem ser violentas e utilizarem precisamente os seus pontos fracos para o atacarem. Daí a necessidade – para superar este momento e não o rejeitar, dado que ele faz parte do processo – de aceitar plenamente as suas zonas de sombra. O terapeuta pode ficar abalado por estes ataques se ele próprio desprezar ou esconder as suas fraquezas. Se ele as conhece e aceita, considerá-las-á como necessárias ao desenvolvimento da autonomia das pessoas. Isso leva os participantes à seguinte reflexão: se o interveniente pode mostrar as suas fraquezas e vulnerabilidade diante do grupo, sem que o desprezemos, eu também posso fazê-lo. Aceitar seus pontos fracos, significa igualmente aceitar seus erros. O terapeuta social não é um super-homem incapaz de se enganar. A sua confiança no grupo, nele mesmo e no trabalho colectivo, permitem-lhe enfrentar e assumir as suas emoções. A finalidade não é cometer erros, mas um "erro" do terapeuta pode até tornar-se benéfico para o grupo. Tudo é bom, trabalhemos com tudo o que ocorre no seio do grupo. Um líder que “não sabe” A autoridade paternalista dos líderes que precisam de ser amados, acolhidos e úteis, valorizando os “bons subordinados” que a satisfazem e que se tornam seus apoiantes indefectíveis, leva a que ninguém tenha interesse em mostrar-se tal qual é, coma as suas zonas de sombra. Deste modo, a autoridade paternalista mantém uma forma de poder pessoal superior ao resto do grupo. Considerada como quem sabe e pode salvar, ela impede o grupo de responder às suas próprias necessidades e de se capacitar para fazer surgir uma Inteligência colectiva e uma cooperação. Ela é, de certo modo, violenta. Em TS, é impossível prever o que vai acontecer num grupo. O terapeuta social não sabe antecipadamente como é que o trabalho evoluirá. Na verdade, como à que podemos esperar transformar um grupo que espera tudo de um "especialista" e se submete a um objectivo fixado por outros? A resposta só pode ser negativa. Por razões terapêuticas e de eficiência, falar em termos de programa de acção é violentar as pessoas na medida em que as suas necessidades não são consideradas. Deve-se partir da premissa de que são os participantes que possuem o saber e os meios para regular os conflitos. Presume-se que o terapeuta social trabalhará "com” o grupo e não "sobre" o grupo. É um líder que não sabe. Manter-se-á aberto a todos os aspectos de um problema social não impondo qualquer solução mas, pelo contrário, ajudando o grupo a atingir os objectivos fixados em comum. Não só se recusa a ter respostas – mesmo se como cidadão possa ter as suas opiniões ou convicções – como se impedirá de influenciar o grupo. Isto também implica que tenha de assumir riscos, aceitar fracassos e incertezas. A partir do momento em que se conduz um trabalho sem impor os seus próprios objectivos ou o seu saber, a ansiedade está presente; o grupo vai procurar o seu caminho na itinerância. De facto tudo pode acontecer quando não há um programa preestabelecido, mas é deste risco que vamos extrair o máximo de fecundidade em termos de produção de ideias e de mudança. Os fenómenos de grupo O acompanhamento da transformação dos fenómenos de grupo permite que sejam curadas as doenças sociais e o mal-estar individual. Todos os grupos funcionam inicialmente nos da mesma maneira: • Uso de uma máscara. Os participantes serão inicialmente tais quais são na vida quotidiana. Não é trivial estar-se na frente de estranhos e num contexto desconhecido. Isto produz fenómenos de protecção, de intimidação, de reconhecimento de vários medos. Todos podemos mobilizar e desenvolver, conforme as circunstâncias, determinadas facetas da personalidade que permitem não sermos demasiado vulneráveis durante os contactos iniciais, geralmente difíceis. Há quem use uma máscara pacifica e simpática, outros a do perfeito profissional, enquanto outros a do rebelde... • Insegurança diante dos outros. O encontro com desconhecidos reaviva os medos, os fantasmas, ocasionando todo o tipo de projecções e de transferência. • Considerar-se vítima. No início de uma TS, todos dizem ser vítima dos outros ou vítima do sistema. • Falsa representação dos outros. Toda agente se clausura numa visão simplista dos outros. Os membros do grupo fazem generalizações a partir do que imaginam saber sobre a profissão de um dos participantes... • Necessidade de um guia. Certos participantes, especialmente num primeiro tempo, esperam que a animador lhes ofereça um contexto benevolente e acolhedor, não suportando que ele manifeste inquietudes ou incertezas. • Escolha entre a submissão ou… a rebelião. Alguns idealizam o terapeuta, objecto de sua admiração, enquanto outros o diabolizam quando ele revela facetas da sua personalidade que parecem desagradáveis ou deslocadas. • Ser de um ou outro clã. Inicialmente as pessoas avaliam-se, sendo frequente que se reagrupem em seguida entre elas por conhecimentos ou afinidades e formem clãs entre pessoas que não se receiam e são capazes de se tranquilizar mutuamente. O grupo em terapia social O grupo pode ser definido como um conjunto de indivíduos mantendo relações recíprocas entre eles. Deste modo, é no interior do grupo que as pessoas vão experimentar concretamente e de maneira privilegiada o seu vínculo em relação aos outros. O grupo de TS torna-se um microcosmo da sociedade. Os conflitos, as violências, os medos e os ódios que os participantes experimentam na sua relação uns com os outros, serão revividos, tal como as blocagens e dificuldades de cooperação. De acordo com K. Lewin: "a essência de um grupo não reside na similaridade a ou dissimilaridade dos seus membros, mas na sua interdependência. Pode-se caracterizar um grupo como um todo dinâmico, o que significa que uma mudança no estado de qualquer uma das suas partes implica uma mudança no estado de todas as outras partes que dela dependem”. No início de uma TS, as pessoas são simplesmente "reagrupadas", mas para que se transformem em grupo, um trabalho específico deve ser feito. É esta uma etapa essencial do método e não um dado previamente estabelecido. Não é vantajoso reunir apenas pessoas "convencidas", desejosas de mudança, de Ser confrontado com as realidades do ser humano, isto é, às resistências, às oposições, às cóleras, às impossibilidades de cada um, é uma fonte de riqueza. O método Ele consiste em reviver, no ambiente protegido de um grupo, todos os bloqueios ou entraves à cooperação experimentados pelas pessoas na sua vida social. A tomada de consciência da sua responsabilidade individual em relação aos outros dá origem a um desejo de mudança que pode ser posto em prática no grupo e assim promover uma cooperação mais eficaz. Tudo que vive em maior escala entre as pessoas no seu trabalho e as suas múltiplas Cada participante exprimirá as suas blocagens ou dificuldade em trabalhar e viver com os outros. Isto leva gradualmente os participantes a querer experimentar novas formas de se relacionamento. Este desejo de mudança não lhes será imposto pelo terapeuta com o fim de melhorar a cooperação ou uma melhor compreensão entre os participantes – tal como é o caso da mediação – mas sim de os acompanhar na expressão mais livre possível dos seus medos, dos seus ódios e, portanto, da sua violência. Essa liberação da palavra é possível através da criação dum clima de confiança. Este método é particularmente exigente não podendo ser acompanhado por formas de intervenção que estejam em contradição com ele, tais como a aprendizagem de uma boa comunicação ou a imposição de exercícios destinados a evitar tensões, fadiga, tédio, descontentamento, os quais, em TS, são sintomas muito importantes da situação relacional da pessoa. Ser firme nessas escolhas metodológicas não é fácil, tanto mais que o terapeuta, objecto de muitas reacções hostis, pode ser tentado em procurar satisfazer os desejos e necessidades imediatas das pessoas a fim de lhes agradar ou porque receia vir a ser rejeitado. No entanto, é mantendo esta orientação metodológica que a realidade dos conflitos e das violências, de que os participantes são vítimas ou autores, pode surgir em plena luz do dia e transformada. A terapia social e o modelo pesquiza - acção O grupo TS, tal como em "pesquiza - acção" (K. Lewin), é essencialmente um espaço de aprendizagem de novos comportamentos. As pessoas experimentam a mudança ao fazerem uma pesquisa sobre si mesmas e sobre os grupos sociais em geral. O processo de mudança é feito em duas etapas: • primeiramente a pesquisa, o questionamento, a tomada de consciência • em seguida, as propostas e resoluções de problemas O grupo é uma sociedade em miniatura aonde as pessoas reproduzem involuntariamente os problemas vividos no exterior. Deste modo o grupo transforma as pessoas em agentes de mudança da sociedade no seu conjunto. A função terapêutica da dinâmica de grupo vem em grande parte desta interacção entre as pessoas. Estas entreajudam-se descobrindo os seus sofrimentos mútuos e reconhecendo gradualmente, como quem explora um jogo de espelhos, as suas próprias dificuldades, os seus próprios desajustamentos, até poderem tomar consciência de sua resistência à mudança. Aquilo que é mais terapêutico é, em última análise, a descoberta da sua própria responsabilidade: por um lado eu sou responsável pelo facto de que nada muda e, por outro lado, tenho o poder de gerar a mudança. Criar um clima de confiança Convocar um grupo não é constituí-lo: a primeira acção é neutra, a segunda requer um compromisso. Criar um clima de confiança a fim de que todos possam mostrar-se tal qual são, sem receio de serem julgados pelos outros ou de serem rejeitados. À medida que avança o trabalho terapêutico, os participantes vão ser os protagonistas das suas próprias vidas – especialmente social e profissional – debaixo do olhar dos outros. É esta observação que os tornará conscientes das suas atitudes, dos seus comportamentos, das suas posturas e maneiras de ser. Tal como num laboratório aonde se procura recriar as condições naturais, aqui, o método consiste em recriar a "doença" social para que esta seja encenada e tornada visível. Salvo que os participantes não são cobaias mas sim o equivalente do pesquisador; eles utilizam-se mutuamente para compreenderem os seus disfuncionamentos individuais, colectivos, recíprocos. É um processo que permite uma inter-formação, uma inter-peritagem, uma inter-terapia. Os grupos criados em laboratório poderão posteriormente "modelizar" novos comportamentos à escala da sua organização e da sociedade. A este segundo nível, eles experimentarão a mudança depois de terem experimentado os disfuncionamentos. Certas fases do processo são emocionalmente degastadoras porque os participantes precisam de ultrapassar e questionar o seu funcionamento habitual. Ora um grupo não vai aceitar entrar nesse processo a não ser que se sinta em segurança. É por isso que é primeiramente necessário criar uma indispensável relação de confiança e provocar uma transferência positiva para a pessoa do terapeuta (bom médico). Este deve ser reconhecido como competente, útil ao grupo e tendo uma boa capacidade de escuta. A confiança também deve ser criada entre os participantes: • Respeito das regras • Liberdade de expressão: seja o for dito não haverá represálias • Se as pessoas sentem que podem expressar-se sem correrem riscos, permitir-se-ão um maior envolvimento • Nenhuma palavra é estúpido, trivial, absurda e inaceitável O terapeuta deve saber acolher todas as informações (palavras), escutá-las e não julgá-las seja qual for o carácter extraordinário, estranho ou patético de certas afirmações. A hipótese é-se que elas têm significado na medida em que são a expressão particular das necessidades das pessoas. O contrato também é útil para estabelecer este clima de confiança. Todos devem sentir-se incluídos no que for decidido durante esse trabalho. Organizar encontros improváveis A noção de encontro é essencial. Os sectores sociais estão cada vez mais separados uns dos outros, tornou-se imperativo incentivar reuniões que podem ser descritas como "improváveis" entre pessoas que não têm oportunidade de estar juntos e que, além disso, que não o desejam necessariamente. Procurando o seu caminho na errância A errância é sempre um momento difícil. Parecer ser uma fase de insucesso porque é o momento em que todos desanimam, incluindo o terapeuta, e porque ninguém vai saber para onde vai o grupo nem como ele vai sobreviver. Os participantes irritam-se, aborrecem-se, enervam-se, quando deixam de ver claramente a tarefa e os meios de que dispõem para a realizar. O terapeuta também poderá ficar carregado de sentimentos negativos não sabendo o que fazer para poder avançar. O que é importante para ele é saber reconhecer esta fase como normal e, sobretudo, necessária ao avanço do processo. Os participantes ao começarem a ganhar autonomia agarram-se ao terapeuta, crendo que ele deve ajuda-los e que tem necessariamente uma solução. Em TS vamos deixar instalar-se esta fase de errância, na certeza de que, necessariamente, ela faz sentido e de que algo no grupo está procurando surgir, mesmo se ainda não se sabe o quê. Não é o interventor que provoca esta inquietude, mas ela vai certamente manifestar-se arrastando igualmente o próprio terapeuta nesse sofrimento através das suas dúvidas e receio de fracassar. Ele também vai entrar em situação de errância Nessa situação o que é importante é o caminho percorrido em conjunto, apesar de ninguém saber aonde ele conduz. Do mesmo modo que num sonho, a errância tem um sentido que se descobre no fim da caminhada. Não é um obstáculo, mas um passo inevitável. Ela indica que a solução não é predeterminada, mas que deve ser encontrada em conjunto. Harmonização das diferentes motivações (contrato) Uma vez que é identificada a verdadeira motivação das pessoas, o seu ponto de ancoragem, isto é, o elemento que lhes permite pensar que elas têm algo a ganhar com esta história, então o trabalho terapêutico pode começar. Colocam-se então as motivações individuais no pote comum para dele extrair em seguida alguns eixos principais podendo satisfazer o grupo. O resultado final de um contrato em TS nunca corresponde ao que o terapeuta quer, nem ao que o patrocinador pretende, nem ao que o grupo ou qualquer participante espera. No entanto, no final, e de maneira não organizada previamente, ele corresponde ao objectivo que todas as partes desejavam atingir no início do trabalho. Há sempre um ponto de ancoragem capaz de envolver todos os participantes e permitir que o trabalho tenha sentido e atinja resultados concretos, satisfazendo as necessidades de todos em relação a um problema comum. Enquanto o projecto não fizer a unanimidade, não pode avançar. Isso leva tempo, mas é importante que não se queimem as etapas. Para harmonizar as motivações, é preciso favorecer a expressão dos sofrimentos – estimulá-la mesmo - dando vazão a sentimentos como a tristeza, a raiva, o medo. É a expressão desses sentimentos "negativos" que permite compreender quais são as necessidades reais das pessoas. O grupo auto-curativo O grupo constituído tem por função principal a de ser capaz de encontrar as suas próprias maneiras de curar. É por isso que o terapeuta social não pode trabalhar com um programa pré estabelecido, nem presumindo resultados a alcançar. Ele ignora os problemas, só tem preconceitos. Ora com base neste princípio o terapeuta social permitirá que as pessoas “aprendam” progressivamente por elas próprias. Elas são simultaneamente especialistas e médicos de todo o grupo. O que vai caracterizar um grupo constituído é a sua aptitude para a mudança. À partida qualquer grupo terá tendência para se mostrar vítima, ou impotente, devido ao hábito repetido de deixarmos os outros decidirem por nós. Mas alcançará progressivamente uma maior autonomia soltando-se das garras desta autoridade inconsciente. A submissão, a rebelião e a passividade serão substituídas pela autonomia, acção e criatividade. Cada pessoa adquirirá confiança em si, mas também no interesse de uma boa cooperação com os outros. Eles percebem que podem tornar-se parceiros das autoridades, dos outros e da comunidade. Farão também a experiência de que, em conjunto, incluindo as autoridades, serão mais produtivos e também mais justos e mais Inteligentes. A regra de ouro do terapeuta é escutar sempre o que se passa, a cada instante, no grupo. Ele não deve obstinar-se nas suas previsões nem, por comodidade, excluir os imprevistos. O terapeuta ajusta constantemente o tiro em função dos acontecimentos. Tal é a condição para que acompanhe realmente o processo, com os imprevistos e errâncias que deles decorrem. Embora esta posição seja difícil de assumir ela é a condição sine qua para o exercício desta profissão que visa o desenvolvimento da autonomia das pessoas. O terapeuta é o equivalente de um guia de montanha que ignora a maneira como o grupo vai caminhar, a que ritmo, quais os obstáculos que vai encontrar e como vai ultrapassá-los para chegar ao cimo da montanha. Ele não sabe no lugar dos outros embora saiba em que direcção se dirige, qual é o objectivo final decidido inicialmente. Os instrumentos da terapia social A palavra ‘instrumento’ pode sugerir uma manipulação consciente ou inconsciente por parte do terapeuta. Mas é claro que ele não vai fazer diagnósticos, mas sim respeitar o ritmo das pessoas oferecendo a cada participante a oportunidade de expressar quem ele é e quando quiser. Os instrumentos da TS são: • Um grupo que irá servir como um espelho • Um terapeuta consciente das suas próprias feridas • A escuta • A reformulação • Uso da transferência e da contratransferência A postura do "terapeuta ferido" é central para o método Mais do que uma ferramenta, esta atitude revela de que maneira a personalidade do terapeuta é essencial para o sucesso processo. A comunicação autêntica A comunicação não pode efectuar-se enquanto subsistirem distâncias psicológicas fortes entre pessoas. Na realidade, essas distâncias são correntes e constituem obstáculos para o diálogo social e abertura possível. Alguns fenómenos psíquicos daí decorrem: tanto as blocagens, isto é, a impossibilidade de alguns em se aproximarem dos outros, como as filtragens, ou seja, o uso de uma comunicação fingida. As blocagens são menos problemáticos, porque é sempre possível tentar restabelecer o diálogo, enquanto os filtros darão a ilusão da existência de comunicação embora, na realidade, esse tipo de intercâmbio se caracterize por um excesso de reservas e resulte em ambiguidades e equívocos que provocarão tensões entre as pessoas. Em TS os grupos farão a experiência de uma comunicação autêntica. Aprenderão a superar os mecanismos de defesa e a promover atitudes de abertura em relação aos outros. O terapeuta deve dar o exemplo e os membros do grupo devem procurar ser autênticos nas suas relações com os outros: serem si próprios, estarem presentes no relacionamento, serem abertos e não defensivos em relação aos seus próprios sentimentos, dando provas de transparência. Aprenderão assim a ser empáticos, ou seja, a considerar os outros, a sua identidade e as componentes emocionais inseparáveis da realidade. A escuta e a reformulação O psicoterapeuta pratica "flutuante" confiando na sua intuição, no que ele detecta por detrás das palavras, por detrás das expressões faciais e corporais. Ouve o que é dito, mas também o que vê e sente, a linguagem não-verbal dos participantes. Escuta-se igualmente ele próprio, tentando decifrar, compreender, o que sente (mal-estar, tédio, alegria...). Os seus sentimentos e impressões são intuições que têm de ver com a sua qualidade de escuta. Se ele se aborrece, por exemplo, é porque há qualquer coisa no grupo que deve ser identificada (a errância, os não-ditos...) A reformulação É um instrumento importante que ajuda a dar substância ao processo e uma maior visibilidade. O terapeuta, ao reformular, ajuda o grupo a compreender o que está sendo dito, o que se passa. A reformulação também fornece uma dupla segurança aos participantes: • Em primeiro lugar, sentem que tudo que diz é tido em conta, escutado e, em seguida, utilizado em vistas da realização conjunta • Em segundo lugar, as expressões confusas e díspares podem ser retomadas e associadas aos objectivos determinados pelo grupo O grupo vê melhor para onde vai e para que servem essas palavras à primeira vista confusas ou sem relação com o trabalho em andamento. Transferências Os conceitos de "transferência" e de "contratransferência" vêm de Freud. Eles reflectem certas perturbações nevróticas que se manifestam através da repetição de uma relação à partida infantil mas de que a pessoa não é consciente. • A transferência é uma espécie de "projecção", feita em relação a uma pessoa: a imagem de alguém com quem tivemos um relacionamento muito íntimo, sobrepõe-se a uma pessoa desconhecida • A contratransferência diz respeito às reacções inconscientes à transferência. Ele pode afectar igualmente o próprio terapeuta. A diferença é que o terapeuta assume as suas reacções projectivas, reconhecendo-as e sendo capaz, em teoria, de distinguir entre quem é e aquilo que ele projeta. Em TS, a relativa intimidade criada entre os indivíduos, mas também com o terapeuta, permite que uma pessoa "reviva" uma problemática emocional que lhe é própria e que pode na verdade, referir-se à sua infância. A diferença em relação a uma sessão de psicanálise é que o transferência vai realizar-se em referência à vida social dos participantes. O objectivo não é tratar os indivíduos nesses grupos mas sim de saber em que medida, por exemplo, o elo com a autoridade dificulta trava ou impede uma boa cooperação no seio do grupo. Poderá uma terapia social substituir a terapia individual? O TS não pretende substituir uma terapia individual. Os objectivos são diferentes. Na TS não lidamos com uma pessoa doente que precisa ser tratada e que geralmente é voluntária, mas com uma colectividade que não consegue sair de um impasse ou duma situação de violência. Os participantes vivem apesar de tudo um processo terapêutico focalizado sobre as relações doentias que os impedem de viver e de trabalhar juntos. O resultado e uma parte do processo aproximam-se bastante de uma terapia, dado que a pessoa recria uma relação a si mesma e aos outros menos afectada por fantasmas e preconceitos. Se a TS não tem os mesmos objectivos que a terapia individual, ela tem apesar disso um efeito terapêutico ao curar as relações da pessoa consigo mesma, com os outros e, especialmente, com as figuras de autoridade, o que representa um considerável aquisição pessoal. A TS é uma psicoterapia cujo objectivo não é curar as pessoas, mas sim melhorar as É praticada, destacando os filtros emocionais e ideológicos que nos impedem de ver a realidade em toda a sua complexidade. Ela permite que os indivíduos envolvidos num um problema colectivo exprimam o seu sofrimento, compreendam as suas "estratégias" de sobrevivência e, consequentemente, os seus comportamentos no seu relacionamento com os outros. Essa conscientização dos bloqueios pessoais – e institucionais – permite a aprendizagem da vida e do trabalho em comum, incluindo a integração do conflito como um valor positivo. A duração da terapia social O tempo necessário pode variar consideravelmente (dependendo do financiamento, da encomenda inicial, dos objectivos, dos meios disponíveis, da disponibilidade dos participantes, etc.) Quanto mais o trabalho for longo, mais ele é rico e mais se ganha em profundidade e subtileza de análise. O princípio destas formações-acções é deixar vir ao de cima os disfuncionamentos das relações quotidianas e experimentar uma nova maneira de viver juntos. Esta experiência, mesmo muito breve, causa sempre mudanças individuais e institucionais. Uma abordagem em TS dura em média dez dias. Este tempo é conhecido à partida pelos participantes e a duração é conscientizada pelo grupo. Assim, no final deste procedimento, são elaboradas propostas ou um projecto. Não se prevê a determinação do que acontecerá posteriormente a estas propostas ou projecto, embora se trate dum aspecto do processo que terá sido reflectido a partir do momento em que foi solicitado. Assim podemos concordar que um responsável da instituição, desde que não seja o superior hierárquico directo dos membros do grupo, possa assistir às sessões da terapia a fim que ele compreenda a dinâmica e prossiga o trabalho de uma forma ou de outra, seja por um projeto concreto, seja pela continuidade das reuniões entre os membros de uma colectividade. A duração de um TS depende dos objectivos formulados: pode ir de uma simples sensibilização de profissionais até a uma experiência inovadora de democracia participativa num bairro. Um dia pode ser suficiente para criar um espaço de encontro entre pessoas que têm dificuldade em viver ou trabalhar juntas, mas é preciso muito mais tempo para mobilizar todos os intervenientes de uma cidade em torno de um problema que causa permanentemente sofrimento e violência. As condições de um TS bem-sucedida As instituições nem sempre têm uma percepção clara do valor de fazer participar pessoas não voluntárias num processo deste tipo. O voluntariado parece-lhes indispensável para a motivação, permitindo às pessoas de se implicarem resolutamente na acção. Ao facilitar a expressão dos sofrimentos de uns e outros, para os aliviar, a TS cria a Lugar e papel da instituição patrocinadora A TS começa, geralmente por um pedidio da instituição. É ela que deve solicitar a TS porque, no final, é ela que está em terapia. É claro que o objectivo é que os indivíduos envolvidos na abordagem terapêutica se transformem, mas isso é secundário. O principal objectivo é que as transformações individuais desemboquem em transformações da instituição, as quais terão como efeito mudanças sociais. Deste modo o pedido deve ser feito por quem deseje e aceite a transformação ou seja, a instituição, desde que, obviamente, ela se tenha apercebido que ela não está bem e que precisa de "fazer uma terapia”. Uma equipa, uma associação também pode beneficiar deste tipo de intervenção. O pedido é geralmente o resultado de um processo demorado que exige várias reuniões e discussões com a instituição, representada por um responsável com poder suficiente e cuja legitimidade junto dos participantes seja indiscutível. O pedido é sempre formalizado pela direcção da instituição, jamais pelos seus agentes, tanto mais que a direcção terá como tarefa a sua integração na abordagem. Não em quantidade – todos os agentes não participam – mas em representatividade. De qualquer modo uma abordagem TS é impossível se já tiver sido feito um diagnóstico de uma dada situação: por exemplo, se forem mencionados no intitulado do pedido comportamentos discriminatórios por parte dos agentes ou ainda se for pedido que se trabalhe sobre a violência dos jovens. Partir daí já é, neste último exemplo, considerar os jovens responsáveis do problema. Uma abordagem TS não começa por respostas dadas adiantadamente por uns e por outros. Ela nem sequer parte de um problema já identificado, visto que nunca foram ouvidas as informações dadas por quem vive o problema, mas sim de um mal-estar que se concretiza por sintomas. Ela apoiar-se-á no desejo da instituição para que cesse o mal-estar. Idealmente, a instituição comanditária deveria ser o mais possível implicada na abordagem. Paralelamente, seria necessário que os decisores seguissem o mesmo processo terapêutico. A “fortiori” se o objectivo de chegar a mudanças institucionais tiver sido claramente enunciado. Constata-se, na prática, que a instituição acompanha o processo de maneira fragmentária, seja por falta de tempo e/ou de motivação. São assim necessários encontros regulares com os comanditários para avaliar o avanço do processo e dos pedidos que lhe são dirigidos. Limites e riqueza duma abordagem TS À excepção dos limites externos – a duração de uma TS e a ausência dos responsáveis – os limites da abordagem são estabelecidos pelos participantes e pelas instituições. Não é de facto possível antever até onde pode ir uma pessoa na sua capacidade de cooperação e de superação dos seus preconceitos, ódios ou medos. Os limites dependem assim das patologias individuais, sendo dado que nunca se sabe que tipo de pessoas vamos encontrar. Os limites também têm algo a ver com os funcionamentos colectivos em que não é possível tocar, pois isso poria em risco a própria instituição. Os limites são omnipresentes e é necessário trabalhar com eles. A Terapia Social não é todo-poderosa Isso seria contrário à sua vocação. O terapeuta não é senhor das transformações individuais, não pode decidir, nem mesmo tem o poder de fazer com que as pessoas se tornem cooperativas ou sociáveis. A TS não tem como objectivo mudar as pessoas mas sim criar as condições que vão tornar possível a mudança através do estabelecimento de um contexto propício à sociabilidade. O terapeuta não controla a maneira como se vai processar a mudança. A TS permite (através das técnicas e métodos descritos) recriar as condições da sociabilidade (ser valorizado, não ser julgado, estar relacionado com os outros) mas dentro dos limites impostos pelos seres humanos e suas patologias. A TS não tem por vocação erradicar totalmente o ódio e a violência que habitam os indivíduos; ela pretende simplesmente diminuir essa parte de ódio e de medos, ou fazer com que eles não se sobreponham aos desejos de sociabilidade. O objectivo final não é “lutar contra” as descriminações ou violência mas encontrar, a partir delas, os fermentos ou os vectores da cooperação ou da sociabilidade. A atitude terapêutica consistirá em não negar a violência, que será considerada como uma tentativa de adaptação a uma determinada situação e como sinal ou sintoma informando que algo não funciona. Tal como qualquer prática terapêutica, a TS não pode garantir transformações duráveis mas tão só acompanhar as transformações possíveis. É nisso que ela é um método “cooperativo” e “não-tecnocrático”. É evidente que o terapeuta é um especialista no funcionamento psíquico e em dinâmica de grupos, mas de modo algum perito nos problemas vividos pelos participantes: ele ignora tanto como eles a maneira de se comportar correctamente numa dada situação de violência ou como entrar em contacto com os habitantes de um bairro. Com efeito, o terapeuta não ensina nem inicia as pessoas a uma qualquer técnica. Ele só permite que indivíduos constituídos em grupo comecem a cooperar. Dever-se-ia igualmente distinguir a TS das práticas de mediação. O seu objectivo não é somente que indivíduos ou grupos que se opõem sejam capazes de se entender e trabalhar juntos – mesmo se isso é uma etapa necessária – mas que sejam capazes de modificar a sua situação, de maneira a que uma tomada de consciência individual possa levar a mudanças institucionais e sociais. A situação inicial problemática deve ou deveria evoluir (através de uma abordagem TS), dado que as pessoas que estão na sua génese ganharam ou reconquistaram poder e capacidade para agir. Isso levá-las-á a transformar o que vivem comummente, em especial através de mudanças e transformações no interior das instituições. A TS é uma aposta que se repete constantemente. A experiência mostra que se formos capazes de criar um ambiente seguro que tranquilize os medos dos seres humanos, estes reencontram naturalmente a sua sociabilidade com resultados úteis na sua vida social. É urgente que aprendamos individualmente e colectivamente a assumir a nossa humanidade. O homem e o planeta estão em perigo. Uma cura colectiva, que leve em conta tanto a necessidade de transformação pessoal como a necessidade de transformar as estruturas sociais, é necessária. Três principais desafios · Formar as pessoas que deverão acompanhar os processos de reconciliação e de cura colectivas · Educar para a vida democrática a fim de fazer face às tentações totalitárias · Transformar a violência e a loucura que fazem obstáculo a uma vida colectiva proveitosa Por que razão não aceitar que se deixe intervir a nossa responsabilidade naquilo que nos acontece? A TS é uma regulação das paixões. Ela faz com que seja possível viver com elas. Esta integração do aspecto racional do nosso psiquismo representa a melhor prevenção possível contra a violência. Aquilo que está na origem da violência é uma representação mental negativa dos outros, representação desumanizada e mesmo diabolizada. É a nossa incapacidade em olhar para as nossa zonas de sombra e, consequentemente, em reconhecer a nossa responsabilidade. A TS oferece-nos pistas de compreensão e ferramentas concretas para convivermos com a loucura sem nos deixarmos destruir por ela. A TS coloca a responsabilidade no centro das relações humanas
Tradução: Joel Pinto
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